sábado, 6 de junho de 2026

Amor pela ruína

 


Quisera amássemos a perfeição o quanto o proclamamos; quisera ligados a ela fôssemos pelo fio da Moira, livres de escolhas.

Ao contrário, parece haver em nós um fascínio involuntário pela destruição e pelo que foi destruído. Por razão nefasta — que nos escapa, como uma sombra alada —, amamos ruínas; ruína é tudo, e condenados estamos à contemplação de nossos ossos insepultos, diria o poeta.

Mas apesar da paráfrase machadiana, não é o sentido elegíaco dos "mortos de sobrecasaca" que buscamos hoje; não convém tratar deste germe daimônico com a timidez de um poeta lírico.

Somos neste dia como as almas dos loucos de Santa Dimpna; nossa chaga é grotesca, e sua face, estarrecedora. Mas não dói como deveria. Sentimo-nos de certa forma justificados em nosso desvario, lunáticos que somos. Nosso dever é o de persistir em direção ao abismo de nossas paixões, que assume enfim suas devidas desproporções históricas.

É nas formas clássicas que este terrível fascínio alça seu primeiro voo. Somos invadidos por um terror histórico insondável no momento em que atestamos o esplendor da Vitória da Samotrácia; neste exato momento, vemo-nos igualmente invadidos por uma liberdade transcendental, irrestrita.

É como se assistíssemos a um milagre estético, que não pode ser replicado. Trata-se de facto de uma perfeição transcendental, inimitável; nem o paradoxo estético que jaz no equilíbrio "perfeito" de terror e piedade no grupo das estátuas de Laocoonte pode se equiparar; nem a Pietá Rondanini; nem a Mão de Deus de Rodin, que aspira semelhante síntese entre a perfeição e a imperfeição, entre matéria e forma.

É como se só nas asas da Samotrácia estivesse o verdadeiro testemunho do sacramento da forma; só a mão do verdadeiro Deus pôde concluí-la, dando-nos um trabalho perfeito, testemunho atemporal de sua infinita misericórdia. Escolhida a dedo em meio a inúmeros trabalhos análogos, foi nas mãos desta trágica vitória que depositamos nossas esperanças. Removeu-lhe a cabeça e os membros superiores para livrá-la do peso e da preocupação; livrou-lhe do que não precisava para que alçasse um voo ainda mais veloz.

É na tragicidade teofânica desta figura que discutimos hoje o nosso igualmente trágico e mórbido fascínio pelas ruínas. Mas esse é também um testemunho de nossa vanglória. "Vitória até depois da morte!", diria um filelenista. Somos piores. Descemos mais fundo.

Dizem que mais do que ver um herói prosperar, prefere-se ver um herói ruir. Em nossa profunda miséria, fomos além: preferimos ver um Deus ruir. Não há o que dizer sobre isso. Calemo-nos.

É possível que este não seja um amor inteiramente estético e sombrio, contudo; é possível que haja, talvez, algo de redentor nesse fascínio. Talvez algo mais leve e inofensivo como um apego às lembranças, como nos cacos das xícaras de Drummond? Uma espécie de memorabilia, que tenta reunir os fragmentos perdidos de nossas memórias do paraíso...? Ou quem sabe algo mais... misterioso?

Uma pista para isso pode estar contida na célebre metáfora do Anjo Histórico de Walter Benjamin; longe de buscar uma exegese do documento em qualquer acepção do termo, busco senão um pequeníssimo empréstimo de sua metáfora: mais especificamente, da parte em que se refere à cadeia causal do progresso histórico como uma pilha de ruínas, da qual o Angelus é afastado a contragosto.

Se o que se nos afigura como progresso não passa de ruínas e de destruição para o Angelus, talvez nos reste esperança; talvez o fato de enxergarmos mais verdade nas fraturas, nas chagas e nas ruínas não seja de todo mau. É possível que haja nisso mais do que um instinto sádico e impiedoso; talvez saibamos, intimamente, que somos como as ruínas de que gostamos.

Talvez saibamos, no fundo, que somos verdadeiramente livres na morte e no sacrifício.

Amor pela ruína

  Quisera amássemos a perfeição o quanto o proclamamos; quisera ligados a ela fôssemos pelo fio da Moira, livres de escolhas. Ao contrário, ...