Texto publicado no @clubeulisses no dia 4 de fevereiro de 2026. Sigam-nos por lá!
É lugar-comum tratar do lendário conflito entre Édipo e a Esfinge como uma acachapante vitória do labdácida sobre a terrível cantora. Há, contudo, algo de discordável nisto, uma vez submetido seu destino — e toda a grandeza e unidade de seu mito complexo, em termos aristotélicos — a uma legítima dialética simbólica. Poder-se-ia argumentar, com efeito, que teve a batalha que aqui se deu entre o homem e a máscara do destino o mais amargo dos desfechos para Édipo e algo de uma inquietante justiça irônica para os restos mortais da guardiã de Tebas...
Nada a redarguir quanto à máxima de Aristóteles: trata-se Édipo Rei da mais perfeita tragédia, isto é, aquela que deslassa o maior e mais complexo mito e que deslinda o mais perfeito chiaroscuro de terror e piedade. As razões para isso exigem nossa total atenção, pois está ligado o problema do destino ao problema da extensão do ser, que é também o problema da grandeza e da unidade do mito de que fala o estagirita.
Uma das condições mais importantes para a qualidade excelsa da tragédia é a efetivação de um mito complexo, isto é, um mito que contém em si peripécia e reconhecimento. A peripécia é o componente mítico que diz respeito à mudança de fortuna, da felicidade para a infelicidade; o reconhecimento diz respeito à catarse do herói no momento em que entende a natureza profunda de sua condição, ou seja, no vislumbre da realidade suprema, na qual se vê como um infeliz. O herói trágico deve ser alto, mas de feições reconhecíveis. Não deve ser um monstro; tampouco homem. É excelente, algo acima do bem e do mal, e seu caráter é o retrato universal do acontecível — não do que aconteceu. As emoções evocadas são de grandeza maior (terror e piedade), e extraímos delas a mais pura contemplação universal da condição humana.
Existem, contudo, mais três condições para que um mito logre êxito: deve ser grande, uno e total. A grandeza de que falamos aqui diz respeito à própria extensão do mito. O mito trágico diz respeito à imitação de uma ação, de um ato universal que se dá numa cadeia causal que tem início, meio e fim. Testemunha-se na tragédia a trajetória de um determinado herói. O que faz esse herói diz respeito sumamente ao desenvolvimento perfeito de uma ação. Toda ação tem um propósito: este propósito está contido em sua origem e em seu fim. Serve a trajetória do herói trágico como o fio condutor entre os pontos desta ação. Vemos o trânsito de Édipo do ponto A ao ponto B, do momento em que se torna herói de sua terra natal até a descoberta da mácula profunda em sua paisagem no testemunho do resultado de suas ações cegas, que o levam a cumprir o mais trágico dos destinos. No ponto A está a Esfinge. No ponto B está Édipo.
Falávamos de como a grandeza do mito é o espelho da grandeza de uma ação. Poder-se-ia arguir que a ação de Édipo Rei é a ação da criatura que almeja se ver livre do destino. Édipo é herdeiro da harmatía (erro) dos labdácidas, os ancestrais de Tebas. Édipo é também uma criança que foi “exposta” nas montanhas, ritual evocativo da separação de um herói de um destino trágico, de uma harmatía. Lábdaco e Édipo são cognomes: o primeiro fala de uma deformidade (pés para fora) e o segundo de uma libertação para os desafortunados. Faz parte a linhagem de Édipo de uma mácula natural, de um desvio do destino. Estar com os pés para fora é parte de sua condição humana. E a tragédia, como bem sabemos, é o mythos da separação do homem da pólis, do desajuste entre o homem e a ordem cósmica em sua fase outonal.
Este é Édipo. E quem é a Esfinge?
Falávamos de como a ação tem começo, meio e fim, e de como estes passos podem ser entendidos como a unidade do ser trágico. É o que vemos refletido na solução de Édipo para o enigma da Esfinge: ao dizer-lhe “o homem”, trata-o como uma criatura que caminha com quatro pernas de manhã, com duas ao meio-dia e com três à noite. A solução é tão devastadora que dissolve a terrível cantora num único suspiro. Explico-lhes o porquê.
Faz parte a Esfinge do complexo simbólico das mães-terríveis, das criaturas que se esgueiraram para fora dos infernos uterinos da linhagem de monstros e titãs do mythos grego. De fato, seu nome é derivado do verbo sphínguein, que quer dizer envolver e apertar. Parte do mythos da Esfinge fala dessa sucção opressiva, de um sufocamento urobórico. A outra parte do mythos diz respeito à natureza alada desta fera, espectral e terrestre a um só tempo, sendo também um incubo, um pesadelo encarnado, algo que não é desse mundo. Poderia voar, mas está sempre em guarda, de pés firmes no chão.
Tomando parte na dialética simbólica, a Esfinge é o animal primevo da síntese sombria entre as potências obsessoras: é alma penada que não deixa as águas mortas do Rio Estige; é femme fatale devoradora de rapazes, devoradora dos audazes. É como um espelho de uma deformidade existencial: estão contidas na Esfinge todas as potências terrestres e todos os delírios ascensionais. É humana, leoa, bovina e alada. Reúne em si todos os animais da Merkabah, assim como os quatro elementos por meio de uma liga quintessencial. É imagem da natureza em seu estado mais enigmático; é a guardiã dos mistérios intramundanos que repousam sob o Véu de Isis. É o pesadelo das potências, o espelho de uma alma trágica, de um destino que cumpre cegamente os desígnios da Moira ao pensar que cumpre o próprio desejo. E é imagem e semelhança do destino do Édipo Tirano, o homem de pés para fora.
Está a Esfinge às portas de Tebas como o homem que caminha sobre quatro patas na tenra infância. É como se Édipo destruísse um selo do apocalipse no momento em que desvenda o que há por detrás da natureza profunda: viola a mãe antes mesmo de voltar à terra Natal. Conquista o trono (que era seu por direito, mas que lhe foi abnegado por uma cisão ocasional) em profano, não em sagrado. É tirano antes de ser rei.
Os passos descritos pelo enigma da “Imperatriz do Mundo” descrevem a cadeia causal inviolável da universalidade trágica da ação dramática: no começo está a Esfinge, “altiva encouraçada de desdém” sobre quatro patas, rainha das potências e devoradora de rapazotes, dona do destino soberano dos dissidentes. Depois está Édipo Tirano, reto e elegante sobre duas pernas, pronto a conquistar o mundo e as estrelas. Resta só a terceira figura: a de um sábio que caminha a duras penas no Jardim das Eumênides por auxílio de uma bengala e de um guia da sabedoria. Esta é Antigona, símbolo da filosofia. O sábio é Édipo em Colono, o cego que vê com os olhos da alma.
No fim de sua vida, tal como no fim da ação trágica, não se vê a animalidade feérica de nossas origens, ou a húbris de quem supera o destino imediato apenas para cair nas teias do destino divino. É Édipo e sua filha; é Édipo e a sabedoria; é Édipo e a Esfinge, enfim reunidos de novo.
