"Não se ocupa um proscênio impunemente, no grande teatro do mistério."
— Eugênio d'Ors em O Barroco.
Em certo sentido, foi nessa necessidade, nessa Ananke, que perfez-se o destino das letras brasileiras: consolidaram-se estas, afinal, por meio do barroco do século XVII. Não alçaram seu primeiro voo debaixo de luzes clássicas, de um sol platônico, livre do desatino, da angústia e dos males do século. Não. Ao contrário, obtiveram êxito na ascensão por meio da queda: viram-se capazes de expressão, liberdade e amplitude por meio do cárcere, da privação e da contração. Hipérbatos como os de nosso hino — de um povo heróico o brado retumbante... — e tantas outras figuras de sintaxe que ainda se nos afiguram tão caras, são mais que notas constitutivas de nossa língua: são máscaras cantadas, melodias escultóricas, símbolos que descerram a complexidade de nossas tristezas e nosso orgulho de sermos quem somos. "Porque quanto mais tenho delinquido /Vos tenho a perdoar mais empenhado."
No topo primevo destas colinas está a figura do Padre Antônio Vieira. Junto a Gregório de Matos, fez parte do conflito que se deu na Capitania da Baía de Todos os Santos contra a tirania do então governador Antônio de Souza Menezes, o Braço de Prata. Mas não é disso que trataremos hoje. Não trataremos da forma canônica com que se deu o conflito das letras e do pensamento individual contra a soberania da truculência no Brasil. Também não trataremos das muitas polêmicas nas quais esteve envolvido esse lendário fantasma português, como as que envolviam suas posições contra o Santo Ofício. Nem mesmo falaremos de seu sebastianismo. Não. Falaremos hoje, com brevidade, de um elemento crucial por trás de um de seus sermões, a saber, o Sermão de Quarta-Feira de Cinza em Roma, feito em 1672, na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses. Por extensão, abordaremos um elemento crucial por trás de sua retórica: o seu brilhante uso da linguagem simbólica.
Não seria um exagero chamar o Padre Vieira de milionário dos símbolos e alegorias. É raro não ver, num de seus sermões, um rico apelo ao símbolo e suas implicações — filosóficas e teológicas — mais profundas. Vemos em seu Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda um desses sublimes casos, quando, ao findar sua súplica a Deus por uma piedade maior que o rigor a que está submetido o povo brasileiro naquele momento — no contexto da segunda invasão holandesa —, pede pela transição do signo de Leão para o de Virgem, a fim de sossegar o mar bravo: "Deixai já o signo rigoroso de Leão, e dai um passo ao signo de Virgem, signo propício e benéfico."
Pois que ciente de seu farto estilo e de sua grandiloquência, não antevi um espanto ainda maior com suas posses. Qual não foi a minha surpresa ao deparar-me, num de seus sermões da Quarta-Feira de Cinzas, com maior intrepidez e habilidade retórica do que jamais sonhei testemunhar nas letras lusófonas: lá estava ele, o Imperador da Língua Portuguesa, declamando, com grande entusiasmo, o segredo da Pedra Filosofal.
Sem correr o risco de manchar o que é perfeito com paráfrases, remeto abaixo as mais importantes passagens do Sermão no que diz respeito à matéria em questão:
«Senhor pó: Nimium ne crede colori. A pedra que desfez em pó a Estátua, é a pedra daquela sepultura. Aquela pedra é como a pedra do pintor, que mói todas as cores, e todas as desfaz em pó. O negro da sotaina, o branco da cota, o pavonaço do mantelete, o vermelho da púrpura, tudo ali se desfaz em pó. Adão quer dizer, Ruber, o vermelho: porque o pó do Campo Damasceno, de que Adão foi formado, era vermelho: e parece que escolheu Deus o pó daquela cor tão prezada, para nela, e com ela desenganar a todas as cores. Desengane-se a escarlata mais fina, mais alta, e mais coroada, e desenganem-se daí abaixo todas as cores, que todas se hão de moer naquela pedra, e desfazer em pó: e o que é mais, todas em pó da mesma cor.»
«Porém a morte, como vingadora de todos os agravos da natureza, a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade, e a fortuna os que fez iguais a razão.»
«Abri aquelas sepulturas (diz Agostinho) e vede qual é ali o senhor, e qual o servo: qual é ali o pobre, e qual o rico? Discerne, si potes: distingui-me ali se podeis o valente do fraco, o formoso do feio, o Rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros? Distingui-los? Conhecei-los? Não por certo. O grande, e o pequeno, o rico, e o pobre, o sábio, e o ignorante, o senhor, e o escravo, o príncipe, e o cavador, o Alemão, e o Etíope, todos ali são da mesma cor.»
Toda a elocução do sermão tem um único propósito: o de nos esclarecer quanto ao pó que somos e quanto ao pó que haveremos de ser. Quanto ao pó erguido e quanto ao pó deitado. Quanto ao fato de que somos não o que aparentamos, mas aquilo que fomos e aquilo que seremos. Quanto ao fato de que verteu-se a vara de Arão em serpente e devorou as demais, mas de que era, em essência, vara; e que voltaria a ser vara.
Da mesma forma é com o simbolismo alquímico, entendido em profundeza máxima pelo Padre Vieira: com efeito, não se trata a alquimia de uma transformação, mas de um retorno. Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris. Reverteris, não transformare. O ouro de que fala a alquimia é, na verdade, o estado mais puro dos metais. Seu primeiro estado. O chumbo representa a putrefação dos metais tal como nossa carne representa a queda. Para que o metal atinja sua purificação máxima, deve retornar ao seu estado de origem. Mas o desiderato final da alquimia em termos puramente mundanos é a obtenção do Ruber, da Pedra Filosofal que representa Adão enquanto manifestação primeva do pó da terra. Do pó vermelho. Do pó do solo damasceno.
Mas não estamos tratando aqui de um retorno ao Adão que é aparência, que é homem primordial, de um Adam Kadmon. Não estamos tratando de Adão enquanto um símbolo de uma pureza perdida. Estamos tratando de sua vermelhidão, do Ruber, do pó que devemos nos tornar. Estamos tratando de sua natureza representativa da queda. E a queda deve ser bem aceita. Deve fazer parte de nós até que nossos morros sejam planificados. Até que os desníveis se nivelem.
A estátua a que se refere o Padre Vieira é a de Nabucodonosor, conforme descrita em Daniel, e simboliza aqui todos os estágios do processo alquímico. Mas este é um processo que se refere às tentativas de discriminação, de acúmulo de posses nesse mundo; refere-se ao império da Águia; refere-se às curas do corpo, à sua fartura e superabundância. É por isso que deve esta estátua vir abaixo; deve ser desfeita em pó, tal como os grandes impérios. À figura da Águia deve se sobrepor a da Fênix, que representa o ouro que somos em essência, a perfeita alegoria que descreve aquilo que está por trás do pó, por atrás dos portões da morte: «Morre a Águia, morre a Fênix; mas a Águia morta não é Águia, a Fênix morta é Fênix. E por quê? A Águia morta não é Águia, porque foi Águia, mas não há de tomar a ser Águia. A Fênix morta é Fênix, porque foi Fênix, e há de tornar a ser Fênix. Assim és tu que jazes nessa sepultura. Morto sim, desfeito em cinzas sim, mas em cinzas como as da Fênix. A Fênix desfeita em cinzas é Fênix, porque foi Fênix, e há de tornar a ser Fênix: E tu desfeito também em cinzas és homem, porque foste homem, e hás de tomar a ser homem.»
Somos pó e ao pó retornaremos: mas o pó é homem, e voltará a ser homem. Aceitando que somos o espelho de uma natureza perfeita, imaterial, inconspurcada, livre dos ditames da geração e da corrupção, voltamo-nos para a fonte, para nossa origem: «Nesta mesma roda natural das coisas humanas, descobriu a sabedoria de Salomão dois espelhos recíprocos, que podemos chamar do tempo, em que se vê facilmente o que foi, e o que há de ser. Que é o que foi? aquilo mesmo que há de ser. Que é o que há de ser? aquilo mesmo que foi (Ecl.1, 9). Ponde estes dois espelhos um defronte do outro, e assim como os raios do Ocaso ferem o Oriente, e os do Oriente o Ocaso; assim, por reverberação natural, e recíproca, achareis que no espelho do passado se vê o que há de ser, e no do futuro o que foi.»
Noutras palavras: ut superius, sic inferius. Nos ditames alquímicos, o que está em cima é como o que está embaixo. Nossa efemeridade é sempre o produto de uma corrupção do tempo: nascemos, crescemos e apodrecemos. Tornamo-nos pó. Mas o pó que nos tornamos é ele mesmo a corrupção de algo perfeito, e é nessa perfeição que respira. É por meio dela que se insufla de vida.
A resposta para o enigma da Pedra Filosofal, para o Padre Vieira, é o pó da terra. A Pedra Filosofal, para os alquimistas, outorga vida eterna. Cura todas as doenças. Sossega o mar bravo.
Como? A resposta de Vieira é tão elegante que ultrapassa a imaginação.
O pó é nossa condição final enquanto corpos; é o nivelamento definitivo, a última partícula a que seremos reduzidos. Uma vez tornados pó, não mais nos transformaremos nesse mundo. Atingimos enfim uma estabilidade perfeita, da qual não nos despediremos até que os mortos sejam ressuscitados. Mas não é no pó que seremos que está o Lápis, o Ruber: é no pó que já somos. É no espelho de nossas almas que devemos assimilá-lo. É na contenção do mar bravo, dos desejos arredios. Na mortificação em vida. No pó que devemos ser por eleição. É dessa forma que tornar-se-ão nossas almas, de uma vez por todas, como as águas pacatas que espelham o céu; que espelham o brilho do sol. Tornamo-nos espelhos da eternidade, cônscios de nossa condição dual. Cônscios do pó que somos.