segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Peso e Graça: Reflexões na Arte e no Tempo

Triunfo de Vênus, de François Boucher. Esta é uma pintura que pode ser perfeitamente interpretada como a queda do Zodíaco, como a queda das potências celestes no contexto da corte de Luís XV — o rei galicano de uma corte regida pelas aparências. É uma imagem da sucção ansiosa de Saturno, da tentativa desesperada de efetivar no tempo aquilo que pertence à eternidade.


A Criação de Adão, de Michelangelo: Michelangelo é o pintor dos tetos, o pintor do céu, e dentre suas mais famosas obras, esta é a que a melhor representa o ato infinitamente piedoso do criador para com a criatura, o toque ativo de Deus e a recepção passiva da matéria, um momento encapsulado em infinita expansão horizontal, que abarca, com a amplitude do Céu, tudo que caminha sobre a terra.


A imagem do tempo incrustada em nossa alma e a experiência do tempo através da peregrinação são duas das caracterizações possíveis do sentido simbólico profundo de Saturno e Júpiter. Este mesmo complexo simbólico pode ser diretamente referido à relação entre o Mar e o Céu, como cantada por Pessoa: 


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

 — Mar Português

 

Essa é uma relação que pode ser imediatamente aferida numa contemplação mais detida dos glifos tradicionais de cada um destes planetas. Ambos os símbolos se perfazem numa composição da Cruz com a Lua, mas com uma diferença fundamental quanto a seu vértice: a Lua em Saturno puxa para baixo (♄), ao contrário de Júpiter, onde estende seus braços (♃). Existe aí uma diferença fundamental em suas distribuições de peso: no primeiro, a graça da potência; no segundo, o peso do ato. 

A Lua é o símbolo do vir a ser, do ciclo de geração e corrupção; é o símbolo astrológico da vida. Vista embaixo, em Saturno, torna-se um testemunho imediato do peso da alma, da experiência do abismo. Uma das alegorias mais tradicionais de Saturno é o oceano, imagem mundana de nossas almas. “Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/Mas nele é que espelhou o céu”: temos aqui uma perfeita imagem ambivalente da alma, que atua como um espelho de potências, que reflete em si tanto o estímulo das tempestades quanto a paz do céu.

Saturno está ligado ao peso da experiência individual, à imposição do imediato. Refletimos a imagem da ordem cósmica saturnina em nossas almas por meio da contemplação dos astros: não se trata de uma experiência, mas da assimilação da concretude cósmica, de uma assimilação imediata das coisas. Esta assimilação é de natureza realista, concreta, inteligível. Saturno é um símbolo da inteligência epistêmica, do conhecimento concreto do mundo. Assimilamos a realidade em nós, mas a realidade pesa. Saturno é lento e denso. Esta é a densidade do chumbo, que atua em nossos corpos como um veneno paralisante.

Esta paralisia ocorre pela impossibilidade de assimilar o tempo intelectualmente, de resolver os problemas do real pela via do conhecimento. A assimilação de um conhecimento estático não necessariamente cria soluções que se perfazem no tempo: Saturno representa a stasis, apesar de ser também o produtor das coisas do tempo, o agricultor. Esta stasis, fora do campo científico, manifesta-se por meio de uma ansiedade angustiante. A contemplação de hipóteses salvíficas, de soluções engenhosas e definitivas para o problema do real se torna amiúde uma solução analgésica, um tetrapharmakos. O realismo da psicologia saturnina torna o nativo cego para a limitação do seu campo de visão.

Saturno é o planeta que melhor reflete a inteligência, o rigor científico. As grandes inteligências se beneficiam de qualidades saturninas. Mas o peso realista dos problemas científicos não serve bem ao problema da existência; não serve bem aos problemas do moto, daquilo que é dinâmico, que está em constante mutação. O peso saturnino modifica nosso tempo interior, e tenta romper imediatamente a distância entre a imagem de uma potência, ou de uma hipótese, e a realidade de um ato. Mas não somos capazes de sintonizar nossas vidas com a ordem cósmica por meio do intelecto. É necessário que cultivemos esta capacidade na serenidade do hábito, na peregrinação da alma por meio do ato piedoso, que é a essência da ruptura com o eu e o encontro com o outro, no qual nos esquecemos de nós. Esta é a essência da piedade de Júpiter, a expansão do eixo horizontal da realidade.

Pela assimilação do hábito, pela ação piedosa, entendemos com naturalidade as distinções da qualidade do tempo. Deus pinta o céu diariamente com suas nuvens, imagens das potências que assimilamos como um paisagismo celeste. Aprende-se a viver observando o céu, da mesma forma que se aprende a viver observando as oscilações cotidianas no caráter do outro e do mundo ao nosso redor. Assimilamos essa constante mutação por meio da piedade, que representa tanto a nossa capacidade de comoção quanto de expansão: o céu é a imagem do ilimitado, da paisagem que abarca todas as potências possíveis, todas as vidas possíveis. Refletida de forma límpida e cristalina em nosso interior, em nosso abismo, compreendemos a necessidade de uma eterna atualização do dia, de uma eterna peregrinação. Superamos a stasis de Saturno, a cristalização de imagens, o desejo obsessivo pela Era de Ouro por meio da expansão de nossas possibilidades, pela transmigração constante dos desejos em prol do desejo de um milagre, de algo que não pertence a esse mundo. A superação do realismo de Saturno se perfaz na assimilação do sublime jovial, da expansão horizontal ilimitada do teto da Capela Sistina, em que assistimos à passiva atitude da matéria de Adão numa contida espera pela atualização ativa de sua potência por meio da ação de Deus Pai.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Piedade que se vê

Piedade que se vê.

Ao contrário do que se diz "assim e simplesmente" a respeito desta grande obra-prima da Renascença, não vejo na Pietá de Michelangelo uma imagem impiedosa, que almeje tão somente o esplendor pelo esplendor. Ao menos não na interpretação mais profunda do sentido da piedade, que diz respeito ao amor pela essência e pelo infinitesimal. Você pode se perguntar, caro leitor, como é possível que se veja algo de infinitesimal naquela que é considerada por muitos como a maior escultura de todos os tempos, feita por um artista banhado em glória e de documentada húbris, tão cara a seus pares. É justo que o faça. Direi, contudo, o porquê de eu não pensar assim.

Um dos sentidos mais inestimáveis da piedade é o seu amor essencial. A piedade está intimamente ligada à humanitas, que é o conjunto de valores fundamentais para que o homem ame aquilo que é e não aquilo que aparenta. Alicerçado nesse ideal, surge enfim o amor pela propriedade privada e pela família, assim como a piedade pelos mortos.

Pode-se testemunhar essa assimilação até mesmo no contexto da filosofia grega: a introdução do conceito de potência, por parte de Aristóteles, traz também a hipótese de um novo tipo de amor para o homem clássico tardio: sendo enfim capaz de distinguir entre potência e ato, é também capaz de distinguir o infinitesimal e essencial daquilo que se perfaz no tempo enquanto ato e concretude. O homem grego, anthropos, o homem enquanto puro ato e membro da pólis, começa enfim a sua longa jornada até os confins do amor pela potência e pelo vir-a-ser.

A piedade está na essência dos homens, na essência das ações. Essa essência, contudo, não diz respeito somente a um grão de areia do deserto ou à mais mínima unidade de semente: está no nosso centro, no centro do nosso ser, no nosso coração. É a nossa capacidade de comoção, nossa capacidade de produzir lágrimas. É por meio dela que pode um homem amar verdadeiramente uma mulher. A piedade se perfaz no amor pela essência e na superação dos acidentes, na capacidade em desfazer feitiços e ilusões para que se chegue ao essencial. Nessa essência está contido todo o esplendor da realidade. 

Esse esplendor está crivado no luto apoteótico de Maria; está crivado na piedade com os mortos de Antígona quando esta diz que "existem leis não-escritas"; está crivado na espera de Electra por Orestes como seu único e legítimo salvador. A piedade reconhece o que há de mais belo nos homens; reconhece o que há de mais comovente na natureza deste homem e desta mulher. Reconhece a beleza da potência, daquilo que amiúde não se faz vivo no tempo; ama os homens e as mulheres pelo que são, pela perspicácia que apresentam em seus interesses profundos e particulares, e não por sua acomodação abstrata a ideias ainda mais abstratas. É no amor pela essência que se tornam os homens mais puros e nobres: suas lágrimas têm efeito de purificação, efeito de cura, de enobrecimento. É mais belo o essencial que o acidental. Não só é mais caridoso: é também mais belo. O que está na alma se vê refletido no corpo.


Esse amor pela essência também pode ser visto na estátua de Michelangelo. Não há mal na valorização da beleza extrema da Pietá; deve-se ver além das aparências. As aparências neste caso dizem respeito à pura caracterização de uma obra como extensão de um ethos, como o retrato de uma época: é a descrição generalista e não-qualificada das produções do tempo. Todo artista se comunica de alguma forma com seu ethos, com os acidentes no seu horizonte de consciência; todo grande artista é também capaz de superá-lo. É capaz de um ato fundador. Michelangelo é então o fundador da estética do sublime na tradição pictórica ocidental pós século XVI. Mais: é também o maior mestre por detrás da técnica a que se chama de non finito. As esculturas de Michelangelo são intencionalmente inacabadas: não deixam o mármore totalmente. Existe nessa atitude uma escavação da substância do mármore, um desvelamento da essência.

A Pietá não deixa o mármore inteiramente, pois seu ato de profunda piedade é também um ato de ligação, um símbolo da comoção universalíssima dos homens, de sua comunhão no vale de lágrimas. Essa comunhão deve ser entendida não somente pela representação das próprias lágrimas, mas pela compreensão profunda da piedade luminosa das produções do tempo. Existe piedade na beleza e existe beleza na piedade, porque a piedade nos purifica e nos eleva sem que tiremos os pés do chão. Esta beleza se irradia por toda a extensão deste magnífico trabalho. Nesta Véspera de Natal, devemos entender o valor da piedade como uma expressão profunda do essencial, que vê além das aparências. Deve-se ver além das aparências.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Conhece-te a ti mesmo

Certa feita algo foi tão puro e espontâneo que nasceu, e as estátuas falaram pela primeira vez. Não foi por mágica que o fizeram: simplesmente despertaram da noite dos séculos. Quanto à figura que emergia das trevas no ocaso da civilização, seria difícil fazer-lhe justiça: envolvida por um manto de ouro, com esferas lápis-lázuli na fronte e com magníficas asas reluzentes nas dorsais, nascia a Inteligência. Certamente não a única, mas talvez a mais "pura" inteligência, moldada às custas da própria energia vital de um povo: tratava-se dos gregos, e a inteligência era sua principal e mais holística característica, que unificava as artes, as ciências, a terra e o silogismo num único potentado, num único corpo que sacrificou a si próprio para que pudesse viver eternamente através de seu legado imaterial. No dia em que o gênio helênico nasceu, as estátuas falaram, e o Doríforo abriu seus olhos.

Falaram por ser forçoso que falassem. Falaram porque foi necessário. 

Assim desenvolvia-se seu intelecto: do mito homérico e do mito de hesíodo surgia uma miríade de poetas, de possibilidades de criação, de temas profundos da natureza humana. Na tragédia, posteriormente, estas formas se reorganizam, se rearticulam; convergem então para o retorno desses ecos do passado através do ato derradeiro, de um estiolamento da vida em prol da eternidade. É na tragédia de Ájax, de Sófocles, por exemplo, que testemunhamos o colapso da força homérica como um sacrifício para o avanço do intelecto. Os valores de Ájax, símbolo do herói homérico, da aristocracia guerreira, devem ser superados: o resultado deste sacrifício é o avanço do gênio helênico, manifestado tanto no nous divino, representado aqui por Pallas, bem como na figura do "novo homem", encarnada no pirata Odisseu. 

Dissemos no início que as estátuas falaram no dia em que o intelecto "nasceu". Isto deve ser melhor entendido. 

As estátuas só deixaram o relevo muitos séculos depois do primeiro fulgor do intelecto grego. Praxíteles, Fídias e Polícleto são crias da Grécia de Péricles, da Grécia clássica; o intelecto fulgurante dos helenos em muito antecede a data. Em que acepção falamos então de um "nascimento"?

Apesar terem sido inteligentes os gregos desde os primórdios, o nascimento do intelecto aludido aponta para o sentido daquilo que está plenamente esclarecido. Não falo do ato próprio da inteligência, mas de sua consciência epistêmica plena, que atinge sua expressão definitiva no projeto socrático. Só na imaterialidade plena e inteligível, livre de obstruções, é que as estátuas podem falar. É nela que as proporções do Cânone de Polícleto ganham vida. É através do desenvolvimento pleno da inteligência que as potências cognoscentes reconhecem, e que as potências cognoscíveis podem ser reconhecidas.

O intelecto grego nos ensina que a Musa da Inteligência prospera na natureza profunda das coisas. Dispõe-se de acidentes indesejáveis para o seu desenvolvimento, às vezes de forma cruel: é o caso da Guerra de Tróia, que dispensa os troianos — símbolos do ctônico de acordo com Porfírio — em prol dos gregos. O mesmo ocorre na dispensa de Ájax para a prosperidade de Odisseu, o herói navegante, símbolo da liberdade.

A Inteligência dispensa suas impurezas e tudo aquilo que não lhe for próprio. É prescindível toda a abstração alienante, todo o delírio e tudo aquilo que não for profundo e cristalino; dispensa-se tudo que não se apresenta de forma perfeita aos olhos da alma. Se não nos voltarmos aos nossos objetos de interesse mais profundos e não resgatarmos nossos temas, não falaremos bem sobre coisa alguma. As estátuas gregas falam porque fazem parte de uma cadeia causal própria, não de uma suprema abstração deleitosa da beleza, de um erotismo idealizado de suas formas acidentais. É o contrário: a beleza e o intelecto grego são coisas indissociáveis. Esta é uma lição sobre a natureza da inteligência, de sua necessária disposição constante de impurezas para que possa de fato emergir. 

Quando as estátuas gregas voltaram à vida, tiveram uma discussão. Passaram a refletir quanto ao próprio peso, quanto à estranha sensação de seus sentidos internos, quanto à singular percepção de uma consciência e de um ponto de vista; refletiam quanto à espessura, a tenacidade e a plasticidade de suas recém adquiridas almas. Concluíram, após longa e exaustiva deliberação, que estas matérias interiores e os objetos que melhor refletem suas naturezas íntimas são muitos e incalculáveis, de valor aproximado ao número de vidas possíveis. Proferiram em uníssono, por fim, uma única deliberação universal, condição sine qua non para a satisfação da musa do intelecto:

"Conhece-te a ti mesmo."

Aristóteles Contemplando um Busto de Homero

S e um connaisseur mínimo das belas artes de qualquer parte do mundo tiver um passaporte válido, uma quantia mínima de dólares para subsis...