AQUILES:
Assim falou a águia, ao perceber as penas
na flecha que perfurava:
Então somos abatidas
por nossas próprias asas
— Ésquilo.
Não há nada mais trágico nesse mundo do que um ato humano de aparência perfeita.
Toda ação positiva, todo ato cônscio, pressupõe a eliminação de outros atos, igualmente válidos e corretos. O herói trágico, contudo, nos termos de Kierkegaard: "...abandona o certo em favor do ainda mais certo, e os olhos do observador repousam despreocupadamente sobre ele."
Não há motivo para que nos apiedemos de um herói trágico antes de seu declínio. Nesse sentido, ele é o radical oposto do herói romanesco, que é poroso, indefinido, um sonho vivo de um eterno devir, caro para nós por sua lírica universal, compreensiva e apaziguadora.
Ao contrário, vemos na imagem do herói trágico o retrato de uma humanidade íntegra e una, inteiramente submetida ao principium individuationis. É como se a liberdade tivesse finalmente sido dada a um dos heróis presos no baixo-relevo da Cavalaria do Partenon, que agora desfruta dos livres prazeres das estátuas de Praxíteles, embevecidas pelo prazer total da aparência e do olhar, mas trágicas, isoladas, destacadas e irremediavelmente despedaçadas.
Uma das imagens mais profundamente trágicas é a do voo de Ícaro, que quanto mais se aproxima do Sol, mais se derrete a cera que fixa suas asas. Isto se deve à sua dupla natureza: o voo do filho é um símbolo universalmente intuitivo da esperança, atribuída à ascensão que permite o homem liberdade suficiente para que se eleve de sua condição obscura e previamente condenada. Mas o desenvolvimento irrestrito de sua natureza é o que o leva à sua própria condenação, tornando-se assim fonte de desespero. Daí o aforismo nietzscheano sobre o que torna heroico: enfrentar aquilo que é, simultaneamente, seu maior desespero e a sua maior esperança.
É nítido que esta concepção advém daquilo que é trágico, de um heroísmo trágico. Mas pode-se contemplar o que está na essência do trágico na natureza da ação humana, da ação heroica, que sofre da mesma duplicidade do voo de Ícaro: trata-se, por um lado, de uma escolha resoluta e convicta, de uma autodeterminação perfeita, que dá forma e sentido à ação; mas também se trata, por outro lado, de um tiro no escuro, feito em completo desconhecimento quanto ao efeito desta ação, quanto a seu resultado no mundo.
A tragédia dá palco à ação que ocorre tanto em um estado de autodeterminação ilusória — nos termos de Schopenhauer e de Nietzsche, num envolver-se com o Véu de Maya —, quanto num estado de possessão, de frenesi, estado acessível aos que sacrificam a própria carne por um espírito, seja ele uma determinada expressão da justiça, como em Antigona; seja ele uma expressão da busca pela verdade, como em Édipo, o assassino da Esfinge; ou mesmo um espírito de uma causa ilegítima, como a de Macbeth — um caso especial que não trataremos hoje.
É nesta contradição fundamental, nesta insanidade loquaz e transcendental, neste enlouquecimento assassino de lugares-comuns, assassino do presente, mas perfeitamente circunscrito, que repousa a ação trágica; e esta ação, arquetipicamente, representa o próprio substrato da ação humana levada às últimas consequências de sua própria natureza.
O herói trágico é o homem "poderoso, cheio de brio" de Goethe; que não se conhece, e que, em muitas das vezes, nem sabe o seu dever.
Mas este é também o homem por detrás da ação humana, que se liga por meio dela às estruturas mais profundas do mundo, e que, por meio desta autodeterminação transcendental, torna-se um agente histórico.
A tragédia representa, dentre outras coisas, o estranho abismo em que os atos se encerram.
