quinta-feira, 28 de maio de 2026

A quintessência do ato nobre



Não há palavra humana que faça jus ao terror e ao tremor suscitados pelo testemunho da hedionda face de Dionísio; igualmente, não há palavra humana que faça jus à angústia extasiante e ao gélido desatino que se apossam do herói enfim confrontado pela natureza íntima de sua própria tragédia. Descartado o pior dos cenários — isto é, o de um confronto em vida com o próprio adversário, aquele que se superpõe ao próprio Brômio no escol da tragicidade —, não parece um desvario afirmar que está na essência da tragédia a pior das experiências humanas.

Assim sendo, vemo-nos na estranha posição de quem contempla algo que é contraditório, mas que o é de maneira perfeita: ao mesmo tempo em que o trágico é águia e escorpião, cavalo e cavaleiro, liberdade e necessidade, ideia e realidade, não há nada na sua imagem totalizante a que se possa atribuir uma imperfeição; não há um único aspecto aparente neste simbolismo estonteante que não se depreenda de atos perfeitos, ainda que confrontados pelos piores horrores e pela maior das contradições. Pior que isto: é justamente na revelação destes horrores, no passo trágico que chamamos de reconhecimento, que estes atos se tornam verdadeiramente perfeitos.

Se fôssemos nos contentar com a ideia de uma perfeição trágica única e simplesmente em seu aspecto apolíneo e dignificado, fruto de um enamoramento pela integridade e pela pureza de seus elementos cênicos — tais como o aspecto lúcido e cristalino do diálogo, bem como a fluidez e imediatez da ação nobre do herói aristocrático —, estaríamos cometendo um equívoco de domínio, que alienaria, por meio deste raciocínio, a própria essência do objeto.

Não se trata a tragédia de uma arte essencialmente apolínea, mas essencialmente dionisíaca. Esta é uma asserção aparentemente óbvia, mas de implicações profundas. É possível que surja um mar de possibilidades uma vez que se dê abertura — e um mínimo de atenção — para a asserção generalista do jovem Nietzsche quanto à verdadeira identidade do herói trágico: nos termos do filólogo da Universidade da Basileia, por detrás de cada herói trágico estaria o próprio Dionísio. Mas este é o mesmo deus das orgias e do êxtase; trata-se daquele mesmo deus que foi enjeitado do Monte Olimpo, cujo culto ocorria no lado ainda mais escuro das noites áticas. Como pode haver tamanha aberração por detrás do ilibado rosto de Antigona?

É difícil responder a esta pergunta sem que aceitemos um simples fato: quanto a isto, Nietzsche tem razão. A tragédia é, de fato, a harmonia cósmica entre o apolíneo e o dionisíaco, que consistiriam, respectivamente, nos termos do autor, nos domínios da aparência e da essência. O primeiro, contudo, diz respeito à dignidade do deus solar; o segundo, ao grito primordial do bode sacrificado. Como unir forças tão contrastantes?

Para que finalmente possamos entender o que há de tão perfeito na imagem desta quimera de proporções aberrantes, vemo-nos forçados a contemplar mais atentamente a essência da ação trágica. Mais que isso: vemo-nos forçados a entender a força por detrás das ações do herói trágico. Porque a perfeição de que falamos subsiste precisamente por causa desta força; é por causa dela, desta força interior, que vemos manifestada a imagem de Dionísio por detrás das feições de Apolo. Trata-se a perfeição trágica de uma perfeição essencial, e não só aparente.

Isto quer dizer que não se move o herói trágico apenas pela força da encenação e do planejamento artístico, mas por algo mais forte; fosse o caso de não haver um canto primordial por trás destas figuras, jamais poderíamos atribuir-lhes verdadeira perfeição; jamais poderíamos atribuí-la às ações do rebaixado Édipo em Colono, ou às heroínas de Sófocles e de Ésquilo, que em nada se comparam em músculo ao poderio de seus opositores.

A tragédia é o próprio reino da contradição dialética, em que há o embate arquetípico entre o homem e seu destino; para Schelling, este seria o coroamento que a arte dá à liberdade, apresentando-nos o testemunho do exercício pleno desta liberdade por meio das ações trágicas dos heróis, que combatem forças que não podem vencer. A contradição a que devemos nos atentar aqui, contudo, é a do fato de ser este mesmo destino combatido tão somente um aspecto de um todo essencial, cujo aspecto mais primordial e mais poderoso reside no interior do herói que o combate.

Isto quer dizer que não habita a perfeição trágica nas ações belas, mas nas ações essencializadas, que irradiam um fulgor divino ainda mais belo e perfeito em seu ocaso. É na certeza de sua justiça que o Prometeu de Ésquilo se eterniza, ao justificar sua força por intermédio de um reino ainda mais elevado que o de Zeus; é na abstração do rosto de Agamenon a partir do de Orestes que está a beleza de Coéforas, que ilustra a ressurreição da justiça por meio do sacrifício da consciência do herói, inevitavelmente perseguido e rebaixado pelas Fúrias.

Chegamos portanto ao x da questão: o que buscamos concluir a partir destas considerações? Um simples — mas devastador — fato: o fato de que a origem da força por detrás do ato nobre está no cerne da contradição trágica, que sacrifica nossas vãs e tolas esperanças em querer conciliar uma vida boa e feliz, livre de sacrifícios, com a defesa de uma verdade, ou de um princípio verdadeiro.

Ao contrário do conjunto de crenças que tornou-se um topos, a verdadeira força — a verdadeira nobreza, a verdadeira coragem — não advém do acúmulo de recursos individuais, mas das fundações do cosmos, do canto primordial que está no seio de nossos papéis no teatro do mundo. É a partir do reconhecimento da verdade que podemos buscá-la; uma vez lá, desnudados, livres de ilusões, vemo-nos capazes de agir, despreocupados quanto ao que possa nos acontecer. Vemo-nos enfim prontos para um necessário e crucial autossacrifício.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

A tragicidade de nossas asas



AQUILES:

Assim falou a águia, ao perceber as penas
na flecha que a perfurava:
Então somos abatidas
por nossas próprias asas

— Ésquilo.


Não há nada mais trágico nesse mundo do que um ato humano de aparência perfeita. 

Toda ação positiva, todo ato cônscio, pressupõe a eliminação de outros atos, igualmente válidos e corretos. O herói trágico, contudo, nos termos de Kierkegaard: "...abandona o certo em favor do ainda mais certo, e os olhos do observador repousam despreocupadamente sobre ele."

Não há motivo para que nos apiedemos de um herói trágico antes de seu declínio. Nesse sentido, ele é o radical oposto do herói romanesco, que é poroso, indefinido, um sonho vivo de um eterno devir, caro para nós por sua lírica universal, compreensiva e apaziguadora. 

Ao contrário, vemos na imagem do herói trágico o retrato de uma humanidade íntegra e una, inteiramente submetida ao principium individuationis. É como se a liberdade tivesse finalmente sido dada a um dos heróis presos no baixo-relevo da Cavalaria do Partenon, que agora desfruta dos livres prazeres das estátuas de Praxíteles, embevecidas pelo prazer total da aparência e do olhar, mas trágicas, isoladas, destacadas e irremediavelmente despedaçadas.

Uma das imagens mais profundamente trágicas é a do voo de Ícaro, que quanto mais se aproxima do Sol, mais se derrete a cera que fixa suas asas. Isto se deve à sua dupla natureza: o voo do filho é um símbolo universalmente intuitivo da esperança, atribuída à ascensão que permite o homem liberdade suficiente para que se eleve de sua condição obscura e previamente condenada. Mas o desenvolvimento irrestrito de sua natureza é o que o leva à sua própria condenação, tornando-se assim fonte de desespero. Daí o aforismo nietzscheano sobre o que torna heroico: enfrentar aquilo que é, simultaneamente, seu maior desespero e a sua maior esperança.

É nítido que esta concepção advém daquilo que é trágico, de um heroísmo trágico. Mas pode-se contemplar o que está na essência do trágico na natureza da ação humana, da ação heroica, que sofre da mesma duplicidade do voo de Ícaro: trata-se, por um lado, de uma escolha resoluta e convicta, de uma autodeterminação perfeita, que dá forma e sentido à ação; mas também se trata, por outro lado, de um tiro no escuro, feito em completo desconhecimento quanto ao efeito desta ação, quanto a seu resultado no mundo.

A tragédia dá palco à ação que ocorre tanto em um estado de autodeterminação ilusória — nos termos de Schopenhauer e de Nietzsche, num envolver-se com o Véu de Maya —, quanto num estado de possessão, de frenesi, estado acessível aos que sacrificam a própria carne por um espírito, seja ele uma determinada expressão da justiça, como em Antigona; seja ele uma expressão da busca pela verdade, como em Édipo, o assassino da Esfinge; ou mesmo um espírito de uma causa ilegítima, como a de Macbeth — um caso especial que não trataremos hoje. 

É nesta contradição fundamental, nesta insanidade loquaz e transcendental, neste enlouquecimento assassino de lugares-comuns, assassino do presente, mas perfeitamente circunscrito, que repousa a ação trágica; e esta ação, arquetipicamente, representa o próprio substrato da ação humana levada às últimas consequências de sua própria natureza. 

O herói trágico é o homem "poderoso, cheio de brio" de Goethe; que não se conhece, e que, em muitas das vezes, nem sabe o seu dever. 

Mas este é também o homem por detrás da ação humana, que se liga por meio dela às estruturas mais profundas do mundo, e que, por meio desta autodeterminação transcendental, torna-se um agente histórico.

A tragédia representa, dentre outras coisas, o estranho abismo em que os atos se encerram. 

Aristóteles Contemplando um Busto de Homero

S e um connaisseur mínimo das belas artes de qualquer parte do mundo tiver um passaporte válido, uma quantia mínima de dólares para subsis...