domingo, 14 de dezembro de 2025

Conhece-te a ti mesmo

Certa feita algo foi tão espontâneo e puro que nasceu, e as estátuas falaram pela primeira vez. Não porque ninguém tivesse feito alguma mágica, ou nem sequer recorrido a qualquer apelo talismânico; nasceu, simplesmente. Coberta de ouro, com esferas lápis-lázuli na fronte e com magníficas asas reluzentes nas dorsais, havia nascido a Inteligência. Não a única Inteligência, mas talvez a única "pura inteligência", nutrida às custas da própria energia vital de uma civilização. Esta civilização era a grega, e a inteligência era sua principal e mais holística característica, que unificava as artes, as ciências, as cidades e o silogismo num único potentado, num único corpo que sacrificou a si próprio para que pudesse viver eternamente através de seu legado imaterial. No dia em que a Inteligência Grega nasceu, as estátuas falaram, e o Doríforo abriu seus olhos.

Falaram por ser forçoso que falassem, como num silogismo válido: a conclusão se segue das premissas, que estão encadeadas. Uma coisa leva à outra. Foi dessa maneira que se desenvolveu a Inteligência Grega: do mito homérico e do mito hesiódico se seguem uma pluralidade de articulações poéticas, de possibilidades de criação, de temas a serem exaustivamente revisitados e resgatados; na tragédia surge uma nova articulação do sentido dessas formas, dessas formas que primitivamente ilustravam tanto a natureza — seja sob a forma de forças antropomórficas que aludiam tanto ao poder dos ventos quanto à beleza transcendente do divino — quanto a conduta dos homens, fossem estes aristocratas (Homero) ou trabalhadores rurais (Hesíodo). Mas é na tragédia que estas formas são rearticuladas para uma imaterialidade racional, para uma reflexão profunda a respeito da natureza humana. A tragédia articula essa unidade de significado, essa imitatio verbi. É na tragédia de Ájax, de Sófocles, por exemplo, que testemunhamos o colapso da força homérica como um sacrifício para o avanço da Inteligência. Os valores de Ájax, símbolo da aristocracia homérica, devem ser superados: o substrato desse sacrifício é o avanço da Inteligência grega, manifestada tanto no nous divino, representado por Athenas, quanto naquilo que é humano, encarnada na figura de Odisseu. 

Disse no início que as estátuas falaram no dia em que a Inteligência nasceu. Sim, é verdade. Mas como? As estátuas só saíram do relevo muitos séculos depois do primeiro fulgor da Inteligência Grega. Praxíteles, Fídias e Polícleto são crias do século V a.C; os gregos eram inteligentes há muito mais tempo. Como isso se deu?

Apesar de os gregos terem sido inteligentes em toda sua trajetória, o nascimento do intelecto aludido é algo que deve ser melhor esclarecido: não falo do ato próprio da inteligência, mas de sua consciência epistêmica plena, que atinge sua expressão definitiva em Aristóteles. A pintura de Rembrandt de 1653, "Aristóteles Contemplando o Busto de Homero" é testemunha deste encontro: é como se Homero estivesse sendo visto pela primeira vez. No momento da composição de sua poética, Aristóteles fez com que Homero voltasse à vida. Sua poética cristalizou o disperso fantasma do mito em um eterno monumento da mente. Só na imaterialidade plena e inteligível é que as estátuas podem falar. É nela que as proporções do Cânone de Polícleto ganham vida. É através do desenvolvimento pleno da inteligência que as potências cognoscentes reconhecem, e que as potências cognoscíveis podem ser reconhecidas.

O intelecto grego nos ensina que a Musa da Inteligência prospera na natureza profunda das coisas. Dispõe-se de acidentes indesejáveis para o seu desenvolvimento, às vezes de forma cruel: é o caso da Guerra de Tróia, que dispensa os troianos, símbolos do ctônico de acordo com Porfírio, para elevar os gregos, os povos que simbolizariam a inteligência. O mesmo ocorre na dispensa de Ájax para a prosperidade de Odisseu, o herói navegante. Há algo de profundamente cruel nestas descrições, mas não é essa a lição a que devemos nos atentar hoje. Devemos nos atentar para o caráter naturalmente inteligente de nossas faculdades.

A Inteligência dispensa suas impurezas e tudo aquilo que não lhe for próprio. Abstrações, delírios e tudo aquilo que não estiver ao alcance dos olhos da alma são plenamente dispensáveis. O mesmo pode ser dito das más amizades e dos romances malfadados. Se não nos voltarmos aos nossos objetos de interesse profundos e não resgatarmos nossos temas, não falaremos bem sobre coisa alguma. As estátuas gregas falam porque fazem parte de uma cadeia causal própria, não de uma suprema abstração deleitosa da beleza, de um erotismo idealizado de suas formas acidentais, como na Renascença. É o contrário: a beleza e o intelecto grego são coisas indissociáveis. Esta é uma lição sobre a natureza da inteligência, de sua necessária disposição constante de impurezas para que possa de fato emergir. Essas impurezas não dizem respeito à abstração do que é impuro, mas daquilo que não é concreto, que não está encadeado em nosso ser. 

Quando as estátuas gregas voltaram à vida, tiveram uma discussão. Passaram a refletir quanto ao próprio peso, quanto à estranha sensação de seus sentidos internos, quanto à singular percepção de uma consciência e de um ponto de vista, quanto à espessura, a tenacidade e a plasticidade de suas recém adquiridas almas. Concluíram, após longa e exaustiva deliberação, que essas matérias interiores e os objetos que melhor refletem suas naturezas íntimas são muitos e incalculáveis, de valor aproximado ao número de vidas possíveis. Proferiram em uníssono, por fim, uma única deliberação universal, condição sine qua non para a satisfação da musa do intelecto:

"Conhece-te a ti mesmo."

O Triunfo da Esfinge e o Destino de Édipo

É lugar-comum tratar do lendário conflito entre Édipo e a Esfinge como uma acachapante vitória do labdácida sobre a terrível cantora. Há, co...