Certa feita algo foi tão puro e espontâneo que nasceu, e as estátuas falaram pela primeira vez. Não foi por mágica que o fizeram: simplesmente despertaram da noite dos séculos. Quanto à figura que emergia das trevas no ocaso da civilização, seria difícil fazer-lhe justiça: envolvida por um manto de ouro, com esferas lápis-lázuli na fronte e com magníficas asas reluzentes nas dorsais, nascia a Inteligência. Certamente não a única, mas talvez a mais "pura" inteligência, moldada às custas da própria energia vital de um povo: tratava-se dos gregos, e a inteligência era sua principal e mais holística característica, que unificava as artes, as ciências, a terra e o silogismo num único potentado, num único corpo que sacrificou a si próprio para que pudesse viver eternamente através de seu legado imaterial. No dia em que o gênio helênico nasceu, as estátuas falaram, e o Doríforo abriu seus olhos.
Falaram por ser forçoso que falassem. Falaram porque foi necessário.
Assim desenvolvia-se seu intelecto: do mito homérico e do mito de hesíodo surgia uma miríade de poetas, de possibilidades de criação, de temas profundos da natureza humana. Na tragédia, posteriormente, estas formas se reorganizam, se rearticulam; convergem então para o retorno desses ecos do passado através do ato derradeiro, de um estiolamento da vida em prol da eternidade. É na tragédia de Ájax, de Sófocles, por exemplo, que testemunhamos o colapso da força homérica como um sacrifício para o avanço do intelecto. Os valores de Ájax, símbolo do herói homérico, da aristocracia guerreira, devem ser superados: o resultado deste sacrifício é o avanço do gênio helênico, manifestado tanto no nous divino, representado aqui por Pallas, bem como na figura do "novo homem", encarnada no pirata Odisseu.
Dissemos no início que as estátuas falaram no dia em que o intelecto "nasceu". Isto deve ser melhor entendido.
As estátuas só deixaram o relevo muitos séculos depois do primeiro fulgor do intelecto grego. Praxíteles, Fídias e Polícleto são crias da Grécia de Péricles, da Grécia clássica; o intelecto fulgurante dos helenos em muito antecede a data. Em que acepção falamos então de um "nascimento"?
Apesar terem sido inteligentes os gregos desde os primórdios, o nascimento do intelecto aludido aponta para o sentido daquilo que está plenamente esclarecido. Não falo do ato próprio da inteligência, mas de sua consciência epistêmica plena, que atinge sua expressão definitiva no projeto socrático. Só na imaterialidade plena e inteligível, livre de obstruções, é que as estátuas podem falar. É nela que as proporções do Cânone de Polícleto ganham vida. É através do desenvolvimento pleno da inteligência que as potências cognoscentes reconhecem, e que as potências cognoscíveis podem ser reconhecidas.
O intelecto grego nos ensina que a Musa da Inteligência prospera na natureza profunda das coisas. Dispõe-se de acidentes indesejáveis para o seu desenvolvimento, às vezes de forma cruel: é o caso da Guerra de Tróia, que dispensa os troianos — símbolos do ctônico de acordo com Porfírio — em prol dos gregos. O mesmo ocorre na dispensa de Ájax para a prosperidade de Odisseu, o herói navegante, símbolo da liberdade.
A Inteligência dispensa suas impurezas e tudo aquilo que não lhe for próprio. É prescindível toda a abstração alienante, todo o delírio e tudo aquilo que não for profundo e cristalino; dispensa-se tudo que não se apresenta de forma perfeita aos olhos da alma. Se não nos voltarmos aos nossos objetos de interesse mais profundos e não resgatarmos nossos temas, não falaremos bem sobre coisa alguma. As estátuas gregas falam porque fazem parte de uma cadeia causal própria, não de uma suprema abstração deleitosa da beleza, de um erotismo idealizado de suas formas acidentais. É o contrário: a beleza e o intelecto grego são coisas indissociáveis. Esta é uma lição sobre a natureza da inteligência, de sua necessária disposição constante de impurezas para que possa de fato emergir.
Quando as estátuas gregas voltaram à vida, tiveram uma discussão. Passaram a refletir quanto ao próprio peso, quanto à estranha sensação de seus sentidos internos, quanto à singular percepção de uma consciência e de um ponto de vista; refletiam quanto à espessura, a tenacidade e a plasticidade de suas recém adquiridas almas. Concluíram, após longa e exaustiva deliberação, que estas matérias interiores e os objetos que melhor refletem suas naturezas íntimas são muitos e incalculáveis, de valor aproximado ao número de vidas possíveis. Proferiram em uníssono, por fim, uma única deliberação universal, condição sine qua non para a satisfação da musa do intelecto:
"Conhece-te a ti mesmo."
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