Disse Nelson Rodrigues que o placar mais humilhante do futebol é um lírico e platônico 0 x 0. Nas palavras do mestre recifense, essa virgindade desagradável e irredutível do escore humilha o público. Na crônica que narrava a desdita, tratava do lendário Brasil x Paraguai no Maracanã. Lá, o herói era Zizinho, que pôs um basta no silêncio mortificante que tomava conta do estádio. Estivemos na mesma catarse no último domingo, só que às avessas, após setenta minutos de jogo.
Quando Haaland marcou de cabeça no segundo tempo, sabíamos que era o fim. Mal sentimos o segundo gol, feito como que para jogar sal na ferida. Os noruegueses eram gigantes, brobdingnaguianos. Tudo era como um pesadelo, um terror barroco, e havia algo de inexpugnável no aspecto paleolítico do boogeyman que acabava com os nossos sonhos. Estão dizendo por aí que é o tal do controle emocional, do profissionalismo europeu, que não temos. Cá para mim não é bem assim.
Das coisas mais estranhas da vida é a defesa de um erro, especialmente para um intelectual. É estranho defendê-lo. É um contrassenso. Mas quando se trata de nosso espírito barroco, de nosso gênio artístico, como coloca mestre Pedro, talvez esta seja uma necessidade. Vai, Endrick! ser gauche na vida.
Certa feita escrevi o seguinte quanto às letras brasileiras: «Não alçaram seu primeiro voo debaixo de luzes clássicas, de um sol platônico, livre do desatino, da angústia e dos males do século. Ao contrário, obtiveram êxito na ascensão por meio da queda: viram-se capazes de expressão, liberdade e amplitude por meio do cárcere, da privação e da contração. Hipérbatos como os de nosso hino — de um povo heroico o brado retumbante... — e tantas outras figuras de sintaxe que ainda se nos afiguram tão caras, são mais que notas constitutivas de nossa língua: são máscaras cantadas, melodias escultóricas, símbolos que descerram a complexidade de nossas tristezas e nosso orgulho de sermos quem somos. "Porque quanto mais tenho delinquido /Vos tenho a perdoar mais empenhado."»
No fundo, esta é uma defesa da vida do brasileiro. É defesa da vitória do orgânico sobre o inorgânico; da vitória do sangue e das lágrimas.
Também parece-me assim com o futebol, cujo talento nos foi entregue por Deus. Um placar de 0x0 é inadmissível, porque humilha o torcedor. Mas um placar de 0x0, para nós, é pior. Representava algo grave no jogo de ontem, algo verdadeiramente imundo; era o reflexo de um momento de hesitação, de uma higienização do que há de mais fundamental em nossa expressão. A omissão de um craque frente aos desígnios da "comissão técnica" na hora de um pênalti e o gol perdido de um "camisa 9" atormentado, um prodígio sem estrela, foram sinais ululantes, cristalinos para o senso comum e profundamente misteriosos para os especialistas.
O que faltou foi raça. Faltou essência. Leiam-me bem: não digo que faltou esforço, preparação ou qualquer desses vocábulos insignificantes, tão caros à mídia especializada. Faltou essência. Tenho certeza de que Endrick e Vinicius Jr. compareceram aos treinos da concentração da seleção brasileira de maneira impecável, e que a revolta do brasiliense de dezenove anos contra o último herói do futebol brasileiro — por conta de suas provocações aos noruegueses — bastará para que o condecorem com o manto do pequeno heroísmo. Mas a revolta de Endrick é falsa, e sua polidez, charlatã.
No último domingo, não foram jogadores de futebol que entraram em campo a serviço do Brasil; certamente vestiam o manto da seleção, chutavam a bola e atendiam quando chamados à atenção pela arbitragem. Mas não eram jogadores de futebol. Não estavam entregues à alegria da bola; não foram para o campo munidos da raça que leva um craque a fazer o gol decisivo, no mano a mano com o goleiro. Endrick não fez o gol porque, naquele momento, antes de ser jogador de futebol, era um gato escaldado. Muitíssimo preocupado com a hipótese de cometer erros, condenado estava a não servir de instrumento para milagres.
Neymar Jr. entrou disposto a cometer erros, faltas e o que mais lhe fosse possível naquele que foi seu último jogo de Copa do Mundo. Não fez grande partida, mas deixou sangue. Esse sangue foi o suficiente para que víssemos um último momento de seu brilhantismo, um último vislumbre de um herói em sentido clássico — não no sentido pequeno-burguês. Sabia de todas as implicações daquela postura afrontosa contra os noruegueses, mas não se importou. Fez uma última cobrança de pênalti em espírito de vendeta, e lavou a alma de alguns brasileiros, que ainda têm horror à omissão. Livrou-nos de um hediondo placar omisso de 2x0, consequência de uma partida estéril. Fez um 2x1 contra tudo e todos: contra o goleiro da Noruega, contra os tabloides nacionais, contra a Internet, contra o tempo escasso, já para além dos acréscimos, milimetricamente calculado, que na cabeça de alguns influenciadores deveria ter sido gasto indo de volta ao campo o mais depressa possível em vez de dedicado a algumas poucas provocações out of spite.
Mas não havia uma partida a ser salva. Não havia nem honra a ser defendida. Só havia essência, o próprio ofício do jogador de futebol; defendia-se naquele momento a mais mínima liberdade para fazer o que sempre fez em sua carreira, quando acreditou em passes impossíveis e em pênaltis milagrosos. Defendeu o direito ao erro para que defendesse, contra tudo e todos, a possibilidade de um milagre.