“Life is a pure flame, and we live by an invisible sun within us.”
— Sir Thomas Browne.
O mistério por trás do capitão Ahab e sua polifônica expedição rumo ao centro da terra, que atravessou o Cabo da Boa Esperança, o Estreito de Sunda, a zona de cruzeiro do Japão e que atravessaria até o vulto espectral do Véu de Maya se lhe fosse dado o direito é, de muitas formas, o mistério por trás da condição humana. Contarei, se as musas me ajudarem, a verdade quanto à maior viagem de todos os tempos.
Para tal, valer-me-ei de um cotejo entre duas expressões mortuárias, entre duas atitudes fundamentais perante a morte: de um lado, a piedade com os mortos, que se faz particularmente presente nos cuidados com o corpo do falecido e as devidas honras funerárias; do outro, as muitas formas de cremar um corpo e reduzi-lo a cinzas, postura fundamentalmente distinta, que não atribui valor intrínseco à circunstância e ao sofrimento humano, mas à eleição do espírito.
Estas duas expressões mortuárias podem ser analogadas a praticamente tudo o que descreve Melville em sua magnum opus. Este, aliás, é um termo extremamente preciso para tratar de Moby Dick: ao longo de seus inigualáveis 135 capítulos, é justamente a magnum opus o que testemunhamos, um longo e laborioso processo alquímico.
Trata-se toda e qualquer expedição marítima de um longo processo de transformação. Para Ishmael, lançar-se à brandura azulada do oceano consiste num exercício meditativo, um longo inebriar-se no incessante murmúrio de segredos cósmicos emitidos pelas ondas e pelas ostras. Para o herói de Melville, o mar é como um axis mundi, um espelho transcontinental e trans geográfico de sonhos e desejos. Não sentou-se a bombordo de uma expedição liderada por um maníaco de proporções titânicas com a mais vaga consciência do que fazia: ao contrário, lança-se por razões subjetivas, buscando a materialização de uma incerteza. O que buscava — descobriremos ao fim de sua jornada — era um encontro com o próprio túmulo: em outras palavras, buscava o encontro com a materialização supra consciente do destino inescapável, da circunstância que não se pode superar: “Onde fica o último porto, de onde não mais zarparemos? Em que éter arrebatador navega o mundo, de que os mais cansados jamais se cansarão? Onde se esconde o pai da criança enjeitada? Nossas almas são como aqueles órfãos cujas mães solteiras morrem ao trazê-los à vida: o segredo de nossa paternidade jaz em seus túmulos e ali devemos descobri-lo.”
Neste caso, representa o encontro com o túmulo — evento apoteótico com que se encerra o romance — o fim da navegação. Fosse Vasco da Gama, Odisseu ou Eneias, tratar-se-ia esta catarse de maneira brutal, às custas de sangue e lágrimas. Tratando-se de Melville, há mais que a brutalidade épica: somos banqueteados com a materialização de um símbolo dos símbolos, que dilacera as incertezas e oscilações marítimas com o peso e a intrepidez dos cachalotes, ao mesmo tempo em que surge dos trágicos escombros de um acidente marítimo. É carne e sangue tanto quanto é alma e pneuma. Trata-se este símbolo da materialização de um caixão, do caixão no qual Ishmael se agarra para sobreviver. O único destinado a sobreviver à maior das tragédias marítimas é portador da consciência filosófica a bordo do Pequod. Chame-o de Ishmael. Herói do épico-romance-filosófico de Melville, carrega consigo toda a catarse trágica de Moby Dick: é, afinal, portador do oceano de desejos e dos sonhos de todo o mundo.
E é neste ponto arquimediano que se separam tão radicalmente os destinos de Ishmael e Ahab. Ao primeiro é concedida a catarse do espírito. A alquimia de que toma parte o herói cujo nome é o do filho enjeitado de Abraão não é a de um abandono das circunstâncias, de uma transformação radical do homem n’outro homem, do eu num outro eu. Trata-se deste, aliás, — e não de outro — o grande crime, o grande segredo do Capitão Ahab, mas já voltamos a ele.
A alquimia de que toma parte Ishmael é a da materialização de uma alma, da materialização de um destino, do último porto. Ao longo do romance, somos brindados com alongadíssimas descrições fisiológicas das baleias, e dos fascinantes mistérios de seus corpos sem vida, como o uso do espermacete em lamparinas. Há um motivo para isto: o de contemplar os mistérios da morte, os mistérios por trás do mundo que habitamos; dos predicados simbólicos do ofício baleeiro; da piedade filial estabelecida entre os navegantes que anseiam por tornar à casa. Da aceitação das circunstâncias, do pó que somos como o leme na tempestade.
Somos impelidos — como leitores — a apreciar mais detidamente as formas que são, a persistência do ser nas coisas, e a temer cada vez mais aquilo que nos lança ao romance como objeto de fascínio: o mar enquanto símbolo fixo da vida, enquanto espelho da lei natural, que exige do homem o equilíbrio, o abandono do ouro e do peso desnecessário, para que não afunde sobre a madeira. Torna-se esta temível força da natureza o grande mestre das almas dos tripulantes. O mar bravo que apequena os marujos torna-os mais reais e menos imaginários. Este é o processo pelo qual passa Ishmael, que vai tornando-se mais como o sal da terra, que anseia mais que tudo, por fim, por um consolo, por salvação, que recebe um caixão como bote salva vidas. Esse é Ishmael, um homem que, ao fim desse processo, absorve as lições do mar para tornar-se algo mais semelhante à terra. Para tornar-se homem em sua mais perfeita e inescapável condição.
Há, contudo, o homem que opta pela revolta e pela superação voluntária do sofrimento. Este é o homem que crema os corpos de seus tripulantes, que quer reduzi-los a cinzas. É um homem que não absorve as lições do mar: busca, ao contrário, evaporá-lo. Um homem feito de fogo, que se recusa a tomar o absurdo, a mediação e o sofrimento como partes da estrutura da realidade. Que decide curar o mundo de sua aparente doença. Atende por Ahab. A doença, por Moby Dick: o Leviatã intransponível.
Diziam os antigos que Odisseu nunca se contentou em voltar a Ítaca. Que sentia a constante necessidade de lançar-se novamente aos sete mares. E o fez: reuniu os Argonautas para uma última expedição, para além das Colunas de Hércules. Foi nesta ocasião em que encontrou seu fim. Sua forma final, consoante Dante, é a de um corpo flamejante, como se tivesse finalmente superado a pequenez do corpo e se materializado em puro espírito. Em pura vontade.
É assim também com o capitão Ahab.
Seu navio baleeiro é, na verdade, o microcosmo de um mundo primordial e multiétnico. Esse é o Pequod. Há uma única finalidade nesta empresa: velejar até as profundezas do abismo para que se possa superar a espessa neblina do véu que oculta os segredos da natureza. Esta é a máscara do deus mau que repousa no Equador.
Superar Moby Dick é superar os limites do mundo conhecido; é velejar para além das Colunas de Hércules. É transpor o véu de Ísis e conclamar o mistério da natureza. É a condução da vontade do homem até a materialização intramundana de seus desejos, até o paraíso perdido. Neste processo, Ahab transforma seus tripulantes em partes de seu corpo. Ao torná-los matérias-primas de sua opus, retira-lhes as identidades e passa a integrá-los num único ente cósmico, num único espírito coletivo da revolta metafísica empreendida pelos enjeitados. Reza Starbuck para que Deus os guarde, pois sente que desobedece-o ao submeter-se à vontade de Ahab.
Torna-se enfim o maldito capitão num monstro marítimo. Pensa ver no Leviatã a névoa esbranquiçada que se deve atravessar para a obtenção desse conhecimento oculto, dessa panaceia que é a cura de todos os males. Ao curar a desproporção da realidade, curaria, de certa maneira, o desbalanço absurdista que se instaurou em seu espírito. Restituiria o equilíbrio por meio da justiça, por meio da vingança.
Não diz respeito a empresa do mar à justiça dos homens, mas ao espelho do céu, aos desígnios da ordem natural. É tarefa piedosa a sobrevida no naufrágio, como o Cristo no mar da Galileia. É parte da lição que absorve Jonas; é também parte da lição de Jó. Piedosa, por tratar-se a aventura marítima de uma caminhada sobre o abismo. É piedosa por tratar-se de uma travessia, de um encontro entre as margens das incertezas.
Chegado o fim do romance, testemunha-se o resultado dessas transformações na alma de um homem: livre de desejos, boia o corpo de Ishmael sobre o caixão de madeira de Queequeg. Submisso à circunstância, impõe à natureza um solene luto no testemunho de sua piedade: raspam-lhe os tubarões como se tivessem cadeados nos dentes; sobrevoam-no os falcões selvagens com os bicos embainhados. É então resgatado por Raquel, o navio de resgate do Capitão Gardiner, que veleja à procura de seus filhos perdidos, dilacerados no conflito com Moby Dick. Pode-se considerar o encontro sob muitos pontos de vista, mas talvez o maior e mais importante símbolo-síntese desta imagem é o encontro entre a mãe universal, a medianeira, o consolo dos marinheiros, e o eterno desconsolo dos órfãos expatriados. Materializa-se a hipótese salvífica. Materializa-se a elevação e o consolo sob o manto do Eterno Feminino.