sexta-feira, 15 de maio de 2026

A tragédia humana contemporânea é um divórcio entre a Aparência e o Ser, e o mundo jaz sem justificativa


É excepcionalmente difícil sentir-se humano nesses tempos. Algo pesa no ar, e todas as tristezas nos parecem, de alguma maneira, mais justificadas do que antes. Paradoxalmente — e por que não, tragicamente —, não vejo saída para esta contradição assassina a não ser um aprofundamento ainda maior nisto que podemos chamar de «senso de humanidade», um senso que, falando-lhes com a maior franqueza, e valendo-me da elocução de um ilustre moribundo da filosofia, ainda não me deixou.

Não raro me vejo debruçado sobre a minha trajetória e os meus propósitos, e percebo nestes, num primeiro olhar, o assombro da dissemelhança, e o tremor e o terror da solidão que se apresenta no abismo da noite insaciável, dessaturada por um quê de madrugada dos mortos. 

Toda aquela ladainha de se sentir mais ligado aos antigos que aos modernos, de ter mais afeição aos mortos que aos vivos; toda aquela conversa que é tão tipicamente reduzida às cinzas frente aos lugares-comuns de nossas vidas sociais — estas sempre envolvidas pelo falso tropicalismo de um falso sol, de um falso sorriso, de um falso calor de um falso deus — paira sobre o meu eu-filosófico como uma tentação alada, que me oferece, com olhos glaucos, a solução para o enigma da Máquina do Mundo, que faria com que desaparecesse toda a dor e todo o sofrimento.

Mas ninguém precisaria habitar o mundo — nem perder-se no mundo — acaso tudo aquilo de que precisássemos fossem respostas. Se ao menos durassem mais que alguns instantes, ao menos tempo suficiente para que extraíssemos suas essências para a feitura de um elixir...

Se a medicina de que se precisa fosse o mero conformar-se com a seclusão, não haveria nada que resolver. Não haveria mistério, e a solução para os horrores mortificantes, para o mal do século, seria óbvia: o problema estaria então no outro, neste estranho monstro, desagradável criatura de hábitos.

Esta é uma conclusão que não posso, contudo, aceitar; atentaria contra a minha própria razão de ser, alicerçada em princípios humanistas. Seria, em outras palavras, um ataque direto ao próprio senso de humanidade que propus como o último porto de que não se deve zarpar.

Percebo, então, ao circunscrever o abismo em que habito, observando-lhe no olho do furacão com um olhar transcendental, a fim de submetê-lo ao sacramento da forma, que as noites em claro e o terror da dissemelhança não passam de notas constitutivas de uma experiência mais profunda. Percebo também que, conjecturar, a partir dessa experiência, algo tão funesto quanto uma impossibilidade de reconhecimento, de semelhança em relação ao «outro», seria um completo desserviço.

O senso de humanidade é abrangente. Há sempre a capacidade de um «reconhecimento do outro» a partir de nossas faculdades contemplativas. E contemplar o outro enquanto um ente perfeitamente dotado de potências cognoscíveis, de um potencial de reconhecimento, é também contemplar a si. 

Contemplar a própria humanidade é contemplar o próprio serviço, o próprio zelo. E é por meio dessa prestatividade que a educação é possível; é por causa dela que a comunidade humana existe. É por isso que escrevemos.

Não compreender-se enquanto membros da raça humana é um desserviço também ao outro; é enxergar nos outros animais. É vê-los como Yahoos, como fez Gulliver, o que fez dele, em última análise, um desprezível Yahoo.

Perceber a própria humanidade é se submeter à contemplação mútua, que é a faculdade humana que nos torna capazes de abstrair as essências. 

Mas o outro é como um eco do passado nesse momento, um ser evanescente. A experiência com o outro tende a ser, no mais das vezes, e nos termos atuais, uma completa decepção. Surge então a tentação, que busca dissolver o paradoxo: a humanidade verdadeira — a dos filósofos mortos com quem dialogo; a dos tristes poetas com quem choro — existe, mas fora do tempo. Como posso amar aquilo que parece humano, que tem aparência humana, que tem cheiro e costumes humanos, mas que em nada se assemelha a esse senso de humanidade de que falamos, e que se mostra, no mais das vezes, incapaz de reconhecer em mim aquilo que há de humano? Como posso...? 

...como?

A tragédia humana contemporânea é um divórcio entre a Aparência e o Ser, e o mundo jaz sem justificativa

É excepcionalmente difícil sentir-se humano nesses tempos. Algo pesa no ar, e todas as tristezas nos parecem, de alguma maneira, mais justif...