quarta-feira, 29 de abril de 2026

Por que lemos romances


Bastava que a sra. Swann não chegasse exatamente igual e no mesmo momento que antes para que Marcel Proust concluísse que a vida vivia lhe escapando pelos dedos, como pó e vento. Bastava que Lady Macbeth fosse assassinada para que a vida perdesse o sentido para seu marido, o Thane de Cawdor. Isto porque a vida-ela-mesma, a vida enquanto vida, não faz o menor sentido para o herói moderno.

Jamais concebemos o herói clássico como um verdadeiro solitário, ou como um homem de abismos, nem mesmo o herói trágico, arquétipo primevo do desacordo e do exílio. Todo herói trágico é retratado como um emancipado, um expatriado, mas não é por meio dessa expressão narrativa que emerge o símbolo do exílio enquanto exílio, da solidão como um negrume.

Há um abismo entre a experiência de Édipo e a de Dom Quixote. Ainda que a caracterização de Édipo seja a de um homem humilhado, mutilado e mortificado, não há nada em seu mythos que nos faça encará-lo como um homem cego de espírito; não há nada que possa impedi-lo de contemplar as estrelas. É munido do sagrado o fogo em que arde o seu sofrimento, e cada parte de seu ser, cada angústia versificada, cada passo dado rumo ao bosque das Eumenides é acolhido na ordem do ser, porque falar do herói clássico é falar de uma alma comunitária, que carrega consigo todos os símbolos de sua cosmovisão. Contavam com hospitalidade e com o reconhecimento humano onde quer que fossem no cosmos da Hélade essas figuras altaneiras, tão elegíacas e tão distantes de nós.

Não é essa a experiência do herói moderno, aqui alegorizado de forma mais universal pela imagem do Cavaleiro da Triste Figura de Cervantes. Esse é um homem-arquétipo, um tipo de herói que talvez tenha dado seus primeiros passos no drama do século XVII, mas que atinge o ápice de sua forma inteligível no romance. Surge então o herói solitário, o homem feito de abismos.

O dever-ser (Das Sollen) mata a vida, assim nos diz Lukács na sua Teoria do Romance. Este é o ente necessário que se perfaz no tempo narrado, carregado de essência, que se imiscui com a vida na grande épica e que é visto nas máscaras do destino na tragédia. Para o herói do romance, o "dever-ser que mata a vida", contudo, é a sua própria subjetividade, confinada neste homem, neste corpo que lembra uma prisão.

O mundo desse herói não é como o de Aquiles — cujos atos “perfeitos” se radicam na certeza da Paidéia e dos deuses —, livre da psicologia hesitante e pronto para o agir. É o oposto no mundo de um homem como Lemuel Gulliver: não engrandece o herói à medida com que atravessa o mundo e seus muitos mundos, mas diminui. Não se torna mais, senão menos.

Se os espólios obtidos na Guerra de Tróia representam honra, aristeia, e estes dizem respeito ao enobrecimento deste herói, que se mede a partir da distância que julga estar da vida, da vida enquanto essência, as experiências de um romance, por outro lado, fazem com que o herói dissipe mais e mais de sua neblina espiritual, do nevoeiro de suas sombras, repleto de sonhos e ilusões.

A única essência com que pode contar nas solitárias trevas em que caminha é a de uma visão mais clara e inteligível dele mesmo. Mas não atinamos esta "forma secreta" solipsisticamente: só sabemos quem somos em relação aos papéis que exercemos, em relação ao outro. Levantamos a âncora e proclamamos enfim: içar velas! Lançamo-nos ao mar, de dedos cruzados ou de mãos postas, rezando para que tudo faça sentido.

Mas quão pouco sentido há! O que descobre-se a seguir é que os amores fracassados de nada valeram, e que as humilhações pouco fizeram por nós. Descobre-se que a jornada foi um fracasso, e que ganhou-se muito pouco de acréscimo à vida. No máximo as salpicadas de um cinismo mordaz. Descobre-se apenas tudo aquilo que não lhe é próprio, que não convém a si. Tudo que não somos.

Desfazer-se e refazer-se sucessivas vezes até atinar a resposta na milésima primeira tentativa... Há quem atribua essa imensa estupidez à necessidade do romance, como se seu propósito — e o da própria vida — fosse o de tomar parte em alguma tortura voluntária, ansiando pela erradicação do prazer e da estagnação. Isto é contudo impossível, cego e estúpido.

O romance nos conduz às formas puras, às coisas por elas mesmas. Não só o homem está sozinho, mas todo o mundo, num silêncio sepulcral, radicado nos abismos semânticos que nos separam. A vida, esta louca desvairada que jamais pode ser entendida por ela mesma, está sempre a escapar pelos dedos do herói. Todos os amores dos heróis do romance são amores pela vida, da Imperatriz de Brobdingnag à Arabela de Belmiro; de Eunice a Kundry. Todos fracassados. Todos sem valia.

Estes fracassos, estas decepções, servem-lhe, contudo, com grande e nobre efeito: tratam-se das necessárias correções de sua melodia interna, que se materializa nesta forma narrativa — que tem algo de uma inocência essencial — como a pura lírica, a lírica enquanto lírica.

O que nos outorga a experiência do romance, às custas da vida, às custas da felicidade, dos sonhos e dos desejos, não é nada mais que a pureza da experiência interna, a pureza semântica do filósofo que pode enfim entender o mundo a partir de um olhar "maior do que a vida".

Esse é o olhar que permite a captação do mundo a partir de suas essências, por meio da revelação abstrata de suas estruturas profundas em nossa consciência. Essas estruturas, uma vez reveladas, fazem com que a inexorabilidade do mundo se dissolva, e que não mais o encaremos como um vale intransponível, mas como uma galeria de objetos de contemplação.

Por meio do romance, por meio desta forma simbólica que é pura lírica, que é pura alma, somos capazes de ver a concretude da vida com olhos translúcidos, como se assistíssemos à eternidade através de uma janela de Hooch, de uma janela que se abre num ponto de fuga, que nos dá a certeza de que não há nada de verdadeiramente intransponível na realidade.

Por meio do romance, como na magnum opus de Melville, atinamos a resposta oculta em nossas almas, a resposta que é também o fim de nossas angústias e o repouso do mar bravo.

Por meio do romance, aprendemos a morrer.

Por que lemos romances

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