quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Meus 30 anos

Vi-me enfim com 30 anos nesta manhã do dia 31 de dezembro de 2025, uma quarta-feira, dia de Mercúrio. É também aqui que o ano se encerra. Dou graças a Deus por isso. Direi a seguir, com brevidade, algumas das mais importantes descobertas que fiz neste ano.

Descobri parte da minha herança e primogenitura intelectual através de minhas raízes enquanto herdeiro da Capitania da Baía de Todos os Santos. Trata-se da linhagem dos retóricos baianos, que advém por essência do Padre Antônio Vieira e deságua na grandeza de estilo do parnasianismo de Ruy Barbosa. Talvez isto explique um pouco da carga em minha prosa: explico-me pouco e falo sempre em termos de lugar-comum, como um retórico. Sim, talvez isto explique um pouco. Não tudo. Nunca tudo.

Descobri uma outra parte dessa primogenitura na tradição poética, na tradição poética certa, na tradição certa para mim, a mais cabível aos meus propósitos: esta é a tradição das imagens barrocas de Gregório de Matos, que me ajudou a entender a natureza carnavalesca do Brasil; é a tradição da lúdica poesia esclarecida dos grandes cariocas, como Cecília e Vinicius; é a pesada tradição abarcada e assimilada pelo espírito de Bruno Tolentino, que tão gentilmente confirmou-me a legitimidade de minhas inquietações filosóficas. Sim, Bruno, façamos um longo desvio da "marmorização moral do ser"...

Descobri novamente o amor e descobri que ele está sempre a nossa espera, muito naquele espírito do Zé Maria quando fala de suas mulheres, principalmente das que não existem. Descobri que as estátuas falam e que a piedade é sempre um desvelamento sucedido por um acolhimento. Descobri que o céu da tormenta é o momento de se ter esperança. Esperança... Descobri o que estava por trás do idealismo das Grandes Navegações, e porque é que Fernando Pessoa escrevia sobre um "Monstrengo" no fim do oceano, sobre um terrível inimigo a ser superado. E voltei então ao idealismo do Padre Vieira... Esperança...

Descobri, por fim, — em meu coração, jamais no intelecto! nunca no intelecto! — o sentido do ano do Jubileu. Quanto a toda essa esperança a ser cultivada no exercício de uma missão, de um papel sagrado, de uma obra que presume amor incondicional pelo infinitamente pequeno. Descobri que devo agir montado em minhas esperanças, de maneira desesperadamente esperançosa. Descobri que 30 anos fazem sentido e que há muito o que se celebrar nesta dádiva. Descobri, depois de tantos barrancos e de mais tantos tropeços que as coisas que amamos não são amadas por serem belas, mas belas por serem amadas. É montado a cavalo neste princípio que me amarro aos próximos 30 anos. Esperançosos, assim espero.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Peso e Graça: Reflexões na Arte e no Tempo

Triunfo de Vênus, de François Boucher. Esta é uma pintura que pode ser perfeitamente interpretada como a queda do Zodíaco, como a queda das potências celestes no contexto da corte de Luís XV — o rei galicano de uma corte regida pelas aparências. É uma imagem da sucção ansiosa de Saturno, da tentativa desesperada de efetivar no tempo aquilo que pertence à eternidade.


A Criação de Adão, de Michelangelo: Michelangelo é o pintor dos tetos, o pintor do céu, e dentre suas mais famosas obras, esta é a que a melhor representa o ato infinitamente piedoso do criador para com a criatura, o toque ativo de Deus e a recepção passiva da matéria, um momento encapsulado em infinita expansão horizontal, que abarca, com a amplitude do Céu, tudo que caminha sobre a terra.


A imagem do tempo incrustada em nossa alma e a experiência do tempo através da peregrinação são duas das caracterizações possíveis do sentido simbólico profundo de Saturno e Júpiter. Este mesmo complexo simbólico pode ser diretamente referido à relação entre o Mar e o Céu, como cantada por Pessoa: 


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

 — Mar Português

 

Essa é uma relação que pode ser imediatamente aferida numa contemplação mais detida dos glifos tradicionais de cada um destes planetas. Ambos os símbolos se perfazem numa composição da Cruz com a Lua, mas com uma diferença fundamental quanto a seu vértice: a Lua em Saturno puxa para baixo (♄), ao contrário de Júpiter, onde estende seus braços (♃). Existe aí uma diferença fundamental em suas distribuições de peso: no primeiro, a graça da potência; no segundo, o peso do ato. 

A Lua é o símbolo do vir a ser, do ciclo de geração e corrupção; é o símbolo astrológico da vida. Vista embaixo, em Saturno, torna-se um testemunho imediato do peso da alma, da experiência do abismo. Uma das alegorias mais tradicionais de Saturno é o oceano, imagem mundana de nossas almas. “Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/Mas nele é que espelhou o céu”: temos aqui uma perfeita imagem ambivalente da alma, que atua como um espelho de potências, que reflete em si tanto o estímulo das tempestades quanto a paz do céu.

Saturno está ligado ao peso da experiência individual, à imposição do imediato. Refletimos a imagem da ordem cósmica saturnina em nossas almas por meio da contemplação dos astros: não se trata de uma experiência, mas da assimilação da concretude cósmica, de uma assimilação imediata das coisas. Esta assimilação é de natureza realista, concreta, inteligível. Saturno é um símbolo da inteligência epistêmica, do conhecimento concreto do mundo. Assimilamos a realidade em nós, mas a realidade pesa. Saturno é lento e denso. Esta é a densidade do chumbo, que atua em nossos corpos como um veneno paralisante.

Esta paralisia ocorre pela impossibilidade de assimilar o tempo intelectualmente, de resolver os problemas do real pela via do conhecimento. A assimilação de um conhecimento estático não necessariamente cria soluções que se perfazem no tempo: Saturno representa a stasis, apesar de ser também o produtor das coisas do tempo, o agricultor. Esta stasis, fora do campo científico, manifesta-se por meio de uma ansiedade angustiante. A contemplação de hipóteses salvíficas, de soluções engenhosas e definitivas para o problema do real se torna amiúde uma solução analgésica, um tetrapharmakos. O realismo da psicologia saturnina torna o nativo cego para a limitação do seu campo de visão.

Saturno é o planeta que melhor reflete a inteligência, o rigor científico. As grandes inteligências se beneficiam de qualidades saturninas. Mas o peso realista dos problemas científicos não serve bem ao problema da existência; não serve bem aos problemas do moto, daquilo que é dinâmico, que está em constante mutação. O peso saturnino modifica nosso tempo interior, e tenta romper imediatamente a distância entre a imagem de uma potência, ou de uma hipótese, e a realidade de um ato. Mas não somos capazes de sintonizar nossas vidas com a ordem cósmica por meio do intelecto. É necessário que cultivemos esta capacidade na serenidade do hábito, na peregrinação da alma por meio do ato piedoso, que é a essência da ruptura com o eu e o encontro com o outro, no qual nos esquecemos de nós. Esta é a essência da piedade de Júpiter, a expansão do eixo horizontal da realidade.

Pela assimilação do hábito, pela ação piedosa, entendemos com naturalidade as distinções da qualidade do tempo. Deus pinta o céu diariamente com suas nuvens, imagens das potências que assimilamos como um paisagismo celeste. Aprende-se a viver observando o céu, da mesma forma que se aprende a viver observando as oscilações cotidianas no caráter do outro e do mundo ao nosso redor. Assimilamos essa constante mutação por meio da piedade, que representa tanto a nossa capacidade de comoção quanto de expansão: o céu é a imagem do ilimitado, da paisagem que abarca todas as potências possíveis, todas as vidas possíveis. Refletida de forma límpida e cristalina em nosso interior, em nosso abismo, compreendemos a necessidade de uma eterna atualização do dia, de uma eterna peregrinação. Superamos a stasis de Saturno, a cristalização de imagens, o desejo obsessivo pela Era de Ouro por meio da expansão de nossas possibilidades, pela transmigração constante dos desejos em prol do desejo de um milagre, de algo que não pertence a esse mundo. A superação do realismo de Saturno se perfaz na assimilação do sublime jovial, da expansão horizontal ilimitada do teto da Capela Sistina, em que assistimos à passiva atitude da matéria de Adão numa contida espera pela atualização ativa de sua potência por meio da ação de Deus Pai.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Escrevo, logo existo

Escrevo, logo existo; existo, logo escrevo. Creio ser esse, em partes, o sentimento existencial por detrás de toda criação artística. Toda vez que um homem semeia, experiencia a plenitude dos ciclos da vida em seu peito. A cultura humana se baseia no sentido profundo da agricultura: o plantio e a colheita simbolizam parte do que há de essencial no ciclo de geração e corrupção, e é por esta razão que Prometeu rouba o fogo dos deuses e o entrega ao homem: para que tenha sua mente iluminada quanto ao seu fim último. 

A chama prometeica é, na verdade, do tamanho de um grão de milho (pyrós): é o fogo essencial, o fogo que veio para iluminar a cegueira existencial do homem. Por meio da cultura, assistimos ao espetáculo da vida sob o aspecto da eternidade, com começo, meio e fim. Germinamos cidades e escrevemos poesia. Por meio do cultivo do essencial, entendemos parte daquilo que nos liga a um destino, um destino que se divide em atos, atos estes que nos dão unidades de sentido para cada fase de nossas vidas, seja por meio da analogia cósmica com o ciclo das estações ou pela contemplação do que há de inteligível em nossos sentimentos se submetidos à vigília poética.

Nesse sentido, são esclarecedores e aterrorizantes os versos de Cecília Meireles em "Motivo", quando canta: "Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa./Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta./Irmão das coisas fugidias,/não sinto gozo nem tormento./Atravesso noites e dias/no vento."

Quanto mais poetamos, mais nos enxergamos com certa ironia: é da natureza humana que se possa ver as coisas no máximo sob o aspecto da eternidade, e nunca de sua perspectiva integral. Isto quer dizer que servem-nos nossos sonhos, nossas abstrações e toda nossa atividade criativa como espelhos biográficos que aspiram o reflexo de algo essencial e constante em nós mesmos; aspiram a captura visível de algo que supere o tempo. Somos, conduto, incapazes de obter este algo por completo, criaturas que somos. A ironia da contemplação também nos separa de nós mesmos. À medida com que avança o intelecto, reduz-se, por exemplo, nossa capacidade de viver em puro ato. Testemunhamos nossas potências e nos decompomos em partes; vemo-nos capazes e incapazes no curso de um breve instante. Tornamo-nos o que somos, o que fomos, o que gostaríamos de ser e também o que poderíamos ter sido, tudo de uma só vez. E descobrimos ser essa a experiência da vida conquanto não haja um alicerce da unidade que nos resguarde, que entre em contato direto com o ser que sabemos existir dentro de nós, mas que já não se vê com clareza nem com os olhos da alma.

Lançar-se ao mundo é perigoso, é solvente. E é com lágrimas nos olhos que testemunhamos nossa própria deterioração. Assistimos tudo o que há para se ver em nossa dispersão interior e nos esquecemos de nossa unidade secreta, de nossa forma perdida. Esta unidade tem como correspondente na realidade o nosso papel, que está nos escombros de nossos acidentes. Somos agraciados com o poder da cultura para que cheguemos ao âmago do nosso ser. Em nosso íntimo, vemo-nos incapazes de nos manter íntegros frente à dispersão do real. Somos reféns de um ponto de vista, reféns das nossas consciências limitadas a respeito do mundo. Isto não quer dizer que não haja uma unidade dentro de nós: quer dizer que, em dado momento, nos esquecemos de nosso imortal talento. Esquecemos da natureza de nosso dom para a cultura como a de uma dádiva: esquecemos que recebemos tal dom de Deus. Os poetas antigos cantam às musas porque meramente comunicam aquilo que é desejo dos deuses: nossas inspirações têm a mesma origem, ainda que nosso objeto de canto seja menor e mais modesto em escopo. Trata-se da nossa individualidade, que não serve de maneira alguma a um papel solipsista: expomos o que há de mais profundo em nós para que o esclarecimento de nossas circunstâncias, à luz do universal, sirva de espelho e consolo ao próximo.

A poesia tem, portanto, vida própria e origem divina, e ajoelha-se o homem perante seus talentos. Onde está nossa forma perdida? Em nossos papéis no Teatro do Mundo. Eu canto porque o instante existe, e a minha vida está completa. Não sou alegre, nem sou triste, sou poeta.  Os versos de Cecília nos esclarecem desde cedo que há uma forma secreta em nosso propósito, que há algo de mais real que a nossa percepção das coisas: há nossa condição de poeta. Existimos ligados a um ofício, porque é no ofício que subsistimos íntegros como entes. Persistimos no ser por meio de nossas vocações, e é nelas que existimos com máxima integridade. Girard diz que Proust teve uma conversão perfeita, uma conversão como autor, análoga à conversão religiosa. Devemos fugir da dispersão que sugere maior realismo às nossas inquietações do que ao ofício; devemos dele nos apropriar com firmeza para que não nos dispersemos de nós mesmos. Devemos amar o essencial para que possamos verdadeiramente existir, o essencial de nossos papéis, a nossa forma secreta. Devemos nos converter em poetas. Escrevo, logo existo; existo, logo escrevo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Piedade que se vê

Piedade que se vê.

Ao contrário do que se diz "assim e simplesmente" a respeito desta grande obra-prima da Renascença, não vejo na Pietá de Michelangelo uma imagem impiedosa, que almeje tão somente o esplendor pelo esplendor. Ao menos não na interpretação mais profunda do sentido da piedade, que diz respeito ao amor pela essência e pelo infinitesimal. Você pode se perguntar, caro leitor, como é possível que se veja algo de infinitesimal naquela que é considerada por muitos como a maior escultura de todos os tempos, feita por um artista banhado em glória e de documentada húbris, tão cara a seus pares. É justo que o faça. Direi, contudo, o porquê de eu não pensar assim.

Um dos sentidos mais inestimáveis da piedade é o seu amor essencial. A piedade está intimamente ligada à humanitas, que é o conjunto de valores fundamentais para que o homem ame aquilo que é e não aquilo que aparenta. Alicerçado nesse ideal, surge enfim o amor pela propriedade privada e pela família, assim como a piedade pelos mortos.

Pode-se testemunhar essa assimilação até mesmo no contexto da filosofia grega: a introdução do conceito de potência, por parte de Aristóteles, traz também a hipótese de um novo tipo de amor para o homem clássico tardio: sendo enfim capaz de distinguir entre potência e ato, é também capaz de distinguir o infinitesimal e essencial daquilo que se perfaz no tempo enquanto ato e concretude. O homem grego, anthropos, o homem enquanto puro ato e membro da pólis, começa enfim a sua longa jornada até os confins do amor pela potência e pelo vir-a-ser.

A piedade está na essência dos homens, na essência das ações. Essa essência, contudo, não diz respeito somente a um grão de areia do deserto ou à mais mínima unidade de semente: está no nosso centro, no centro do nosso ser, no nosso coração. É a nossa capacidade de comoção, nossa capacidade de produzir lágrimas. É por meio dela que pode um homem amar verdadeiramente uma mulher. A piedade se perfaz no amor pela essência e na superação dos acidentes, na capacidade em desfazer feitiços e ilusões para que se chegue ao essencial. Nessa essência está contido todo o esplendor da realidade. 

Esse esplendor está crivado no luto apoteótico de Maria; está crivado na piedade com os mortos de Antígona quando esta diz que "existem leis não-escritas"; está crivado na espera de Electra por Orestes como seu único e legítimo salvador. A piedade reconhece o que há de mais belo nos homens; reconhece o que há de mais comovente na natureza deste homem e desta mulher. Reconhece a beleza da potência, daquilo que amiúde não se faz vivo no tempo; ama os homens e as mulheres pelo que são, pela perspicácia que apresentam em seus interesses profundos e particulares, e não por sua acomodação abstrata a ideias ainda mais abstratas. É no amor pela essência que se tornam os homens mais puros e nobres: suas lágrimas têm efeito de purificação, efeito de cura, de enobrecimento. É mais belo o essencial que o acidental. Não só é mais caridoso: é também mais belo. O que está na alma se vê refletido no corpo.


Esse amor pela essência também pode ser visto na estátua de Michelangelo. Não há mal na valorização da beleza extrema da Pietá; deve-se ver além das aparências. As aparências neste caso dizem respeito à pura caracterização de uma obra como extensão de um ethos, como o retrato de uma época: é a descrição generalista e não-qualificada das produções do tempo. Todo artista se comunica de alguma forma com seu ethos, com os acidentes no seu horizonte de consciência; todo grande artista é também capaz de superá-lo. É capaz de um ato fundador. Michelangelo é então o fundador da estética do sublime na tradição pictórica ocidental pós século XVI. Mais: é também o maior mestre por detrás da técnica a que se chama de non finito. As esculturas de Michelangelo são intencionalmente inacabadas: não deixam o mármore totalmente. Existe nessa atitude uma escavação da substância do mármore, um desvelamento da essência.

A Pietá não deixa o mármore inteiramente, pois seu ato de profunda piedade é também um ato de ligação, um símbolo da comoção universalíssima dos homens, de sua comunhão no vale de lágrimas. Essa comunhão deve ser entendida não somente pela representação das próprias lágrimas, mas pela compreensão profunda da piedade luminosa das produções do tempo. Existe piedade na beleza e existe beleza na piedade, porque a piedade nos purifica e nos eleva sem que tiremos os pés do chão. Esta beleza se irradia por toda a extensão deste magnífico trabalho. Nesta Véspera de Natal, devemos entender o valor da piedade como uma expressão profunda do essencial, que vê além das aparências. Deve-se ver além das aparências.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Conhece-te a ti mesmo

Certa feita algo foi tão espontâneo e puro que nasceu, e as estátuas falaram pela primeira vez. Não porque ninguém tivesse feito alguma mágica, ou nem sequer recorrido a qualquer apelo talismânico; nasceu, simplesmente. Coberta de ouro, com esferas lápis-lázuli na fronte e com magníficas asas reluzentes nas dorsais, havia nascido a Inteligência. Não a única Inteligência, mas talvez a única "pura inteligência", nutrida às custas da própria energia vital de uma civilização. Esta civilização era a grega, e a inteligência era sua principal e mais holística característica, que unificava as artes, as ciências, as cidades e o silogismo num único potentado, num único corpo que sacrificou a si próprio para que pudesse viver eternamente através de seu legado imaterial. No dia em que a Inteligência Grega nasceu, as estátuas falaram, e o Doríforo abriu seus olhos.

Falaram por ser forçoso que falassem, como num silogismo válido: a conclusão se segue das premissas, que estão encadeadas. Uma coisa leva à outra. Foi dessa maneira que se desenvolveu a Inteligência Grega: do mito homérico e do mito hesiódico se seguem uma pluralidade de articulações poéticas, de possibilidades de criação, de temas a serem exaustivamente revisitados e resgatados; na tragédia surge uma nova articulação do sentido dessas formas, dessas formas que primitivamente ilustravam tanto a natureza — seja sob a forma de forças antropomórficas que aludiam tanto ao poder dos ventos quanto à beleza transcendente do divino — quanto a conduta dos homens, fossem estes aristocratas (Homero) ou trabalhadores rurais (Hesíodo). Mas é na tragédia que estas formas são rearticuladas para uma imaterialidade racional, para uma reflexão profunda a respeito da natureza humana. A tragédia articula essa unidade de significado, essa imitatio verbi. É na tragédia de Ájax, de Sófocles, por exemplo, que testemunhamos o colapso da força homérica como um sacrifício para o avanço da Inteligência. Os valores de Ájax, símbolo da aristocracia homérica, devem ser superados: o substrato desse sacrifício é o avanço da Inteligência grega, manifestada tanto no nous divino, representado por Athenas, quanto naquilo que é humano, encarnada na figura de Odisseu. 

Disse no início que as estátuas falaram no dia em que a Inteligência nasceu. Sim, é verdade. Mas como? As estátuas só saíram do relevo muitos séculos depois do primeiro fulgor da Inteligência Grega. Praxíteles, Fídias e Polícleto são crias do século V a.C; os gregos eram inteligentes há muito mais tempo. Como isso se deu?

Apesar de os gregos terem sido inteligentes em toda sua trajetória, o nascimento do intelecto aludido é algo que deve ser melhor esclarecido: não falo do ato próprio da inteligência, mas de sua consciência epistêmica plena, que atinge sua expressão definitiva em Aristóteles. A pintura de Rembrandt de 1653, "Aristóteles Contemplando o Busto de Homero" é testemunha deste encontro: é como se Homero estivesse sendo visto pela primeira vez. No momento da composição de sua poética, Aristóteles fez com que Homero voltasse à vida. Sua poética cristalizou o disperso fantasma do mito em um eterno monumento da mente. Só na imaterialidade plena e inteligível é que as estátuas podem falar. É nela que as proporções do Cânone de Polícleto ganham vida. É através do desenvolvimento pleno da inteligência que as potências cognoscentes reconhecem, e que as potências cognoscíveis podem ser reconhecidas.

O intelecto grego nos ensina que a Musa da Inteligência prospera na natureza profunda das coisas. Dispõe-se de acidentes indesejáveis para o seu desenvolvimento, às vezes de forma cruel: é o caso da Guerra de Tróia, que dispensa os troianos, símbolos do ctônico de acordo com Porfírio, para elevar os gregos, os povos que simbolizariam a inteligência. O mesmo ocorre na dispensa de Ájax para a prosperidade de Odisseu, o herói navegante. Há algo de profundamente cruel nestas descrições, mas não é essa a lição a que devemos nos atentar hoje. Devemos nos atentar para o caráter naturalmente inteligente de nossas faculdades.

A Inteligência dispensa suas impurezas e tudo aquilo que não lhe for próprio. Abstrações, delírios e tudo aquilo que não estiver ao alcance dos olhos da alma são plenamente dispensáveis. O mesmo pode ser dito das más amizades e dos romances malfadados. Se não nos voltarmos aos nossos objetos de interesse profundos e não resgatarmos nossos temas, não falaremos bem sobre coisa alguma. As estátuas gregas falam porque fazem parte de uma cadeia causal própria, não de uma suprema abstração deleitosa da beleza, de um erotismo idealizado de suas formas acidentais, como na Renascença. É o contrário: a beleza e o intelecto grego são coisas indissociáveis. Esta é uma lição sobre a natureza da inteligência, de sua necessária disposição constante de impurezas para que possa de fato emergir. Essas impurezas não dizem respeito à abstração do que é impuro, mas daquilo que não é concreto, que não está encadeado em nosso ser. 

Quando as estátuas gregas voltaram à vida, tiveram uma discussão. Passaram a refletir quanto ao próprio peso, quanto à estranha sensação de seus sentidos internos, quanto à singular percepção de uma consciência e de um ponto de vista, quanto à espessura, a tenacidade e a plasticidade de suas recém adquiridas almas. Concluíram, após longa e exaustiva deliberação, que essas matérias interiores e os objetos que melhor refletem suas naturezas íntimas são muitos e incalculáveis, de valor aproximado ao número de vidas possíveis. Proferiram em uníssono, por fim, uma única deliberação universal, condição sine qua non para a satisfação da musa do intelecto:

"Conhece-te a ti mesmo."

O Triunfo da Esfinge e o Destino de Édipo

É lugar-comum tratar do lendário conflito entre Édipo e a Esfinge como uma acachapante vitória do labdácida sobre a terrível cantora. Há, co...