quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Segredo do Capitão Ahab e o Eterno Feminino


“Life is a pure flame, and we live by an invisible sun within us.”

— Sir Thomas Browne.

O mistério por trás do capitão Ahab e sua polifônica expedição rumo ao centro da terra, que atravessou o Cabo da Boa Esperança, o Estreito de Sunda, a zona de cruzeiro do Japão e que atravessaria até o vulto espectral do Véu de Maya se lhe fosse dado o direito é, de muitas formas, o mistério por trás da condição humana. Contarei, se as musas me ajudarem, a verdade quanto à maior viagem de todos os tempos.

Para tal, valer-me-ei de um cotejo entre duas expressões mortuárias, entre duas atitudes fundamentais perante a morte: de um lado, a piedade com os mortos, que se faz particularmente presente nos cuidados com o corpo do falecido e as devidas honras funerárias; do outro, as muitas formas de cremar um corpo e reduzi-lo a cinzas, postura fundamentalmente distinta, que não atribui valor intrínseco à circunstância e ao sofrimento humano, mas à eleição do espírito.

Estas duas expressões mortuárias podem ser analogadas a praticamente tudo o que descreve Melville em sua magnum opus. Este, aliás, é um termo extremamente preciso para tratar de Moby Dick: ao longo de seus inigualáveis 135 capítulos, é justamente a magnum opus o que testemunhamos, um longo e laborioso processo alquímico.

Trata-se toda e qualquer expedição marítima de um longo processo de transformação. Para Ishmael, lançar-se à brandura azulada do oceano consiste num exercício meditativo, um longo inebriar-se no incessante murmúrio de segredos cósmicos emitidos pelas ondas e pelas ostras. Para o herói de Melville, o mar é como um axis mundi, um espelho transcontinental e trans geográfico de sonhos e desejos. Não sentou-se a bombordo de uma expedição liderada por um maníaco de proporções titânicas com a mais vaga consciência do que fazia: ao contrário, lança-se por razões subjetivas, buscando a materialização de uma incerteza. O que buscava — descobriremos ao fim de sua jornada — era um encontro com o próprio túmulo: em outras palavras, buscava o encontro com a materialização supra consciente do destino inescapável, da circunstância que não se pode superar: “Onde fica o último porto, de onde não mais zarparemos? Em que éter arrebatador navega o mundo, de que os mais cansados jamais se cansarão? Onde se esconde o pai da criança enjeitada? Nossas almas são como aqueles órfãos cujas mães solteiras morrem ao trazê-los à vida: o segredo de nossa paternidade jaz em seus túmulos e ali devemos descobri-lo.”

Neste caso, representa o encontro com o túmulo — evento apoteótico com que se encerra o romance — o fim da navegação. Fosse Vasco da Gama, Odisseu ou Eneias, tratar-se-ia esta catarse de maneira brutal, às custas de sangue e lágrimas. Tratando-se de Melville, há mais que a brutalidade épica: somos banqueteados com a materialização de um símbolo dos símbolos, que dilacera as incertezas e oscilações marítimas com o peso e a intrepidez dos cachalotes, ao mesmo tempo em que surge dos trágicos escombros de um acidente marítimo. É carne e sangue tanto quanto é alma e pneuma. Trata-se este símbolo da materialização de um caixão, do caixão no qual Ishmael se agarra para sobreviver. O único destinado a sobreviver à maior das tragédias marítimas é portador da consciência filosófica a bordo do Pequod. Chame-o de Ishmael. Herói do épico-romance-filosófico de Melville, carrega consigo toda a catarse trágica de Moby Dick: é, afinal, portador do oceano de desejos e dos sonhos de todo o mundo.

E é neste ponto arquimediano que se separam tão radicalmente os destinos de Ishmael e Ahab. Ao primeiro é concedida a catarse do espírito. A alquimia de que toma parte o herói cujo nome é o do filho enjeitado de Abraão não é a de um abandono das circunstâncias, de uma transformação radical do homem n’outro homem, do eu num outro eu. Trata-se deste, aliás, — e não de outro — o grande crime, o grande segredo do Capitão Ahab, mas já voltamos a ele.

A alquimia de que toma parte Ishmael é a da materialização de uma alma, da materialização de um destino, do último porto. Ao longo do romance, somos brindados com alongadíssimas descrições fisiológicas das baleias, e dos fascinantes mistérios de seus corpos sem vida, como o uso do espermacete em lamparinas. Há um motivo para isto: o de contemplar os mistérios da morte, os mistérios por trás do mundo que habitamos; dos predicados simbólicos do ofício baleeiro; da piedade filial estabelecida entre os navegantes que anseiam por tornar à casa. Da aceitação das circunstâncias, do pó que somos como o leme na tempestade.

Somos impelidos — como leitores — a apreciar mais detidamente as formas que são, a persistência do ser nas coisas, e a temer cada vez mais aquilo que nos lança ao romance como objeto de fascínio: o mar enquanto símbolo fixo da vida, enquanto espelho da lei natural, que exige do homem o equilíbrio, o abandono do ouro e do peso desnecessário, para que não afunde sobre a madeira. Torna-se esta temível força da natureza o grande mestre das almas dos tripulantes. O mar bravo que apequena os marujos torna-os mais reais e menos imaginários. Este é o processo pelo qual passa Ishmael, que vai tornando-se mais como o sal da terra, que anseia mais que tudo, por fim, por um consolo, por salvação, que recebe um caixão como bote salva vidas. Esse é Ishmael, um homem que, ao fim desse processo, absorve as lições do mar para tornar-se algo mais semelhante à terra. Para tornar-se homem em sua mais perfeita e inescapável condição.

Há, contudo, o homem que opta pela revolta e pela superação voluntária do sofrimento. Este é o homem que crema os corpos de seus tripulantes, que quer reduzi-los a cinzas. É um homem que não absorve as lições do mar: busca, ao contrário, evaporá-lo. Um homem feito de fogo, que se recusa a tomar o absurdo, a mediação e o sofrimento como partes da estrutura da realidade. Que decide curar o mundo de sua aparente doença. Atende por Ahab. A doença, por Moby Dick: o Leviatã intransponível.

Diziam os antigos que Odisseu nunca se contentou em voltar a Ítaca. Que sentia a constante necessidade de lançar-se novamente aos sete mares. E o fez: reuniu os Argonautas para uma última expedição, para além das Colunas de Hércules. Foi nesta ocasião em que encontrou seu fim. Sua forma final, consoante Dante, é a de um corpo flamejante, como se tivesse finalmente superado a pequenez do corpo e se materializado em puro espírito. Em pura vontade.

É assim também com o capitão Ahab.

Seu navio baleeiro é, na verdade, o microcosmo de um mundo primordial e multiétnico. Esse é o Pequod. Há uma única finalidade nesta empresa: velejar até as profundezas do abismo para que se possa superar a espessa neblina do véu que oculta os segredos da natureza. Esta é a máscara do deus mau que repousa no Equador.

Superar Moby Dick é superar os limites do mundo conhecido; é velejar para além das Colunas de Hércules. É transpor o véu de Ísis e conclamar o mistério da natureza. É a condução da vontade do homem até a materialização intramundana de seus desejos, até o paraíso perdido. Neste processo, Ahab transforma seus tripulantes em partes de seu corpo. Ao torná-los matérias-primas de sua opus, retira-lhes as identidades e passa a integrá-los num único ente cósmico, num único espírito coletivo da revolta metafísica empreendida pelos enjeitados. Reza Starbuck para que Deus os guarde, pois sente que desobedece-o ao submeter-se à vontade de Ahab.

Torna-se enfim o maldito capitão num monstro marítimo. Pensa ver no Leviatã a névoa esbranquiçada que se deve atravessar para a obtenção desse conhecimento oculto, dessa panaceia que é a cura de todos os males. Ao curar a desproporção da realidade, curaria, de certa maneira, o desbalanço absurdista que se instaurou em seu espírito. Restituiria o equilíbrio por meio da justiça, por meio da vingança.

Não diz respeito a empresa do mar à justiça dos homens, mas ao espelho do céu, aos desígnios da ordem natural. É tarefa piedosa a sobrevida no naufrágio, como o Cristo no mar da Galileia. É parte da lição que absorve Jonas; é também parte da lição de Jó. Piedosa, por tratar-se a aventura marítima de uma caminhada sobre o abismo. É piedosa por tratar-se de uma travessia, de um encontro entre as margens das incertezas.

Chegado o fim do romance, testemunha-se o resultado dessas transformações na alma de um homem: livre de desejos, boia o corpo de Ishmael sobre o caixão de madeira de Queequeg. Submisso à circunstância, impõe à natureza um solene luto no testemunho de sua piedade: raspam-lhe os tubarões como se tivessem cadeados nos dentes; sobrevoam-no os falcões selvagens com os bicos embainhados. É então resgatado por Raquel, o navio de resgate do Capitão Gardiner, que veleja à procura de seus filhos perdidos, dilacerados no conflito com Moby Dick. Pode-se considerar o encontro sob muitos pontos de vista, mas talvez o maior e mais importante símbolo-síntese desta imagem é o encontro entre a mãe universal, a medianeira, o consolo dos marinheiros, e o eterno desconsolo dos órfãos expatriados. Materializa-se a hipótese salvífica. Materializa-se a elevação e o consolo sob o manto do Eterno Feminino.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Triunfo da Esfinge e o Destino de Édipo



É lugar-comum tratar do lendário conflito entre Édipo e a Esfinge como uma acachapante vitória do labdácida sobre a terrível cantora. Há, contudo, algo de discordável nisto, uma vez submetido seu destino — e toda a grandeza e unidade de seu mito complexo, em termos aristotélicos — a uma legítima dialética simbólica. Poder-se-ia argumentar, com efeito, que teve a batalha que aqui se deu entre o homem e a máscara do destino o mais amargo dos desfechos para Édipo e algo de uma inquietante justiça irônica para os restos mortais da guardiã de Tebas...

Nada a redarguir quanto à máxima de Aristóteles: trata-se Édipo Rei da mais perfeita tragédia, isto é, aquela que deslassa o maior e mais complexo mito e que deslinda o mais perfeito chiaroscuro de terror e piedade. As razões para isso exigem nossa total atenção, pois está ligado o problema do destino ao problema da extensão do ser, que é também o problema da grandeza e da unidade do mito de que fala o estagirita.

Uma das condições mais importantes para a qualidade excelsa da tragédia é a efetivação de um mito complexo, isto é, um mito que contém em si peripécia e reconhecimento. A peripécia é o componente mítico que diz respeito à mudança de fortuna, da felicidade para a infelicidade; o reconhecimento diz respeito à catarse do herói no momento em que entende a natureza profunda de sua condição, ou seja, no vislumbre da realidade suprema, na qual se vê como um infeliz. O herói trágico deve ser alto, mas de feições reconhecíveis. Não deve ser um monstro; tampouco homem. É excelente, algo acima do bem e do mal, e seu caráter é o retrato universal do acontecível — não do que aconteceu. As emoções evocadas são de grandeza maior (terror e piedade), e extraímos delas a mais pura contemplação universal da condição humana.

Existem, contudo, mais três condições para que um mito logre êxito: deve ser grande, uno e total. A grandeza de que falamos aqui diz respeito à própria extensão do mito. O mito trágico diz respeito à imitação de uma ação, de um ato universal que se dá numa cadeia causal que tem início, meio e fim. Testemunha-se na tragédia a trajetória de um determinado herói. O que faz esse herói diz respeito sumamente ao desenvolvimento perfeito de uma ação. Toda ação tem um propósito: este propósito está contido em sua origem e em seu fim. Serve a trajetória do herói trágico como o fio condutor entre os pontos desta ação. Vemos o trânsito de Édipo do ponto A ao ponto B, do momento em que se torna herói de sua terra natal até a descoberta da mácula profunda em sua paisagem no testemunho do resultado de suas ações cegas, que o levam a cumprir o mais trágico dos destinos. No ponto A está a Esfinge. No ponto B está Édipo.

Falávamos de como a grandeza do mito é o espelho da grandeza de uma ação. Poder-se-ia arguir que a ação de Édipo Rei é a ação da criatura que almeja se ver livre do destino. Édipo é herdeiro da harmatía (erro) dos labdácidas, os ancestrais de Tebas. Édipo é também uma criança que foi “exposta” nas montanhas, ritual evocativo da separação de um herói de um destino trágico, de uma harmatía. Lábdaco e Édipo são cognomes: o primeiro fala de uma deformidade (pés para fora) e o segundo de uma libertação para os desafortunados. Faz parte a linhagem de Édipo de uma mácula natural, de um desvio do destino. Estar com os pés para fora é parte de sua condição humana. E a tragédia, como bem sabemos, é o mythos da separação do homem da pólis, do desajuste entre o homem e a ordem cósmica em sua fase outonal.

Este é Édipo. E quem é a Esfinge?

Falávamos de como a ação tem começo, meio e fim, e de como estes passos podem ser entendidos como a unidade do ser trágico. É o que vemos refletido na solução de Édipo para o enigma da Esfinge: ao dizer-lhe “o homem”, trata-o como uma criatura que caminha com quatro pernas de manhã, com duas ao meio-dia e com três à noite. A solução é tão devastadora que dissolve a terrível cantora num único suspiro. Explico-lhes o porquê.

Faz parte a Esfinge do complexo simbólico das mães-terríveis, das criaturas que se esgueiraram para fora dos infernos uterinos da linhagem de monstros e titãs do mythos grego. De fato, seu nome é derivado do verbo sphínguein, que quer dizer envolver e apertar. Parte do mythos da Esfinge fala dessa sucção opressiva, de um sufocamento urobórico. A outra parte do mythos diz respeito à natureza alada desta fera, espectral e terrestre a um só tempo, sendo também um incubo, um pesadelo encarnado, algo que não é desse mundo. Poderia voar, mas está sempre em guarda, de pés firmes no chão.

Tomando parte na dialética simbólica, a Esfinge é o animal primevo da síntese sombria entre as potências obsessoras: é alma penada que não deixa as águas mortas do Rio Estige; é femme fatale devoradora de rapazes, devoradora dos audazes. É como um espelho de uma deformidade existencial: estão contidas na Esfinge todas as potências terrestres e todos os delírios ascensionais. É humana, leoa, bovina e alada. Reúne em si todos os animais da Merkabah, assim como os quatro elementos por meio de uma liga quintessencial. É imagem da natureza em seu estado mais enigmático; é a guardiã dos mistérios intramundanos que repousam sob o Véu de Isis. É o pesadelo das potências, o espelho de uma alma trágica, de um destino que cumpre cegamente os desígnios da Moira ao pensar que cumpre o próprio desejo. E é imagem e semelhança do destino do Édipo Tirano, o homem de pés para fora.

Está a Esfinge às portas de Tebas como o homem que caminha sobre quatro patas na tenra infância. É como se Édipo destruísse um selo do apocalipse no momento em que desvenda o que há por detrás da natureza profunda: viola a mãe antes mesmo de voltar à terra Natal. Conquista o trono (que era seu por direito, mas que lhe foi abnegado por uma cisão ocasional) em profano, não em sagrado. É tirano antes de ser rei.

Os passos descritos pelo enigma da “Imperatriz do Mundo” descrevem a cadeia causal inviolável da universalidade trágica da ação dramática: no começo está a Esfinge, “altiva encouraçada de desdém” sobre quatro patas, rainha das potências e devoradora de rapazotes, dona do destino soberano dos dissidentes. Depois está Édipo Tirano, reto e elegante sobre duas pernas, pronto a conquistar o mundo e as estrelas. Resta só a terceira figura: a de um sábio que caminha a duras penas no Jardim das Eumênides por auxílio de uma bengala e de um guia da sabedoria. Esta é Antigona, símbolo da filosofia. O sábio é Édipo em Colono, o cego que vê com os olhos da alma.

No fim de sua vida, tal como no fim da ação trágica, não se vê a animalidade feérica de nossas origens, ou a húbris de quem supera o destino imediato apenas para cair nas teias do destino divino. É Édipo e sua filha; é Édipo e a sabedoria; é Édipo e a Esfinge, enfim reunidos de novo.

A Pedra Filosofal de Vieira

"Não se ocupa um proscênio impunemente, no grande teatro do mistério." — Eugênio d'Ors em O Barroco. Em certo sentido, foi nes...